segunda-feira, novembro 19, 2007

meu querido diário... genético?

Diretamente do Jornal da Ciência de hoje copia esta reportagem:
Amy Harmon escreve para "The New York Times":
A exploração do genoma humano é algo que durante muito tempo está restrito aos cientistas nos laboratórios de pesquisa. Mas isto está prestes a mudar. Uma nova indústria está capitalizando a queda dos custos da tecnologia de exames genéticos para oferecer às pessoas um acesso sem precedentes - e sem intermediários - ao seu próprio DNA.Por apenas US$ 1.000 e uma amostra de saliva, qualquer pessoa poderá se inscrever para descobrir o que a ciência sabe a respeito da maneira como os bilhões de bits do seu código biológico moldaram-na como um indivíduo. Três companhias já anunciaram planos para comercializar tais serviços.Quando me ofereceram a oportunidade de ser uma das primeiras pessoas a usar um desses serviços, eu concordei, mas com algumas reservas. E se eu descobrisse ser provável que morresse jovem? Ou que eu pudesse ter passado um gene indesejável para a minha filha? E, para falar em algo mais pragmático, e se no futuro uma companhia de seguros ou um empregador usasse tal informação contra mim?Mas, três semanas depois, eu já estava meio viciada na comunhão diária com os meus genes (uma questão recorrente: tal vício seria genético?).Por exemplo, as minhas mãos doeram no dia seguinte. Assim, naturalmente, eu chequei o meu DNA.Seria esse o primeiro sinal de que eu herdara a artrite que retorceu os dedos trabalhadores da minha avó paterna? Acessando a minha conta na 23andMe, a companhia pioneira que agora tem a custódia do meu código biológico, digitei a minha pergunta no Genome Explorer e cliquei em "return" ("retonar"). Basicamente, o que eu estava fazendo era uma "googlada" no meu próprio DNA.Passei horas todos os dias fazendo apenas isso, à medida que eram anunciados quase que diariamente novos estudos vinculando trechos de DNA a doenças e a características como aparência, temperamento e comportamento. Às vezes, o fato de surfar no meu genoma causou aquele mesmo choque de reconhecimento que ocorre quando alguém vê a si próprio inesperadamente no espelho.Quando cresci, eu me recusei a beber leite. Agora, fiquei sabendo que o meu DNA carece da mutação que facilita a digestão de leite pelos adultos, algo que tornou-se comum entre os europeus após a domesticação das vacas.Mas a experiência fez também com que eu questionasse as suposições sobre mim mesmo. Aparentemente eu não tenho predisposição para boa memória verbal, embora sempre tenha me orgulhado da minha capacidade de lembrar de ditados e citações. Será que eu deveria gravar mais as minhas entrevistas? Decidi que não; sou boa com citações. Venho praticando há anos. Lembrei a mim mesmo que o DNA não é a palavra definitiva.Não gosto de couve-de-bruxelas. Quem sabia que isso era genético? Mas eu tenho o fragmento de DNA que me confere a capacidade de sentir o gosto de uma substância que faz com que as verduras e legumes apresentem sabor amargo. Sou diferente das pessoas que não sentem o sabor amargo - pessoas que, na verdade, gostam de couve-de-bruxelas - devido a uma única diferença no nosso alfabeto genético de quatro letras: em algum lugar no cromossomo humano sete, eu tenho um G onde elas têm um C.Esta é apenas uma das cerca de dez milhões de diferenças, conhecidas como polimorfismo de nucleotídeo único (SNP, na sigla em inglês), espalhadas pelos 23 pares de cromossomos humanos nos quais a 23andMe inspirou-se para adotar este nome. A companhia criou uma lista dos meus "genótipos" - ACs, CCs, CTs e assim por diante, com base nas versões de SNP que possuo na minha coleção de pares de cromossomos.Por exemplo, tragicamente eu não conto com a predisposição para comer alimentos gordurosos sem ganhar peso. Mas pessoas que, como eu, são GG no SNP conhecido pelos geneticistas como rs3751812 são 2,9 quilos mais leves, em média, do que as AAs. Obrigado, rs3751812!E caso uma descoberta recente seja verdadeira, o meu GG no rs6602024 significa que sou além disso 4,5 quilos mais magra do que aqueles cujo código genético apresenta uma soletração diferente. Boas novas, exceto pelo fato de eu agora só poder culpar a minha preguiça pelo fato de não caber mais nas calças que usava antes da gravidez.E, embora haja grande controvérsia quanto ao papel que os genes desempenham na determinação da inteligência, foi difícil resistir a dar uma espiada nos SNPs que vêm sendo vinculados - mas de forma tênue – ao QI. Três me são favoráveis, três contrários. Mas encontrei esperança em um estudo divulgado na semana passada que descreve um SNP intensamente vinculado a um aumento do QI de bebês que são amamentados.Bebês com a forma CC ou CG de SNP aparentemente beneficiam-se de um ácido graxo encontrado apenas no leite materno, mas, os que têm a forma GG, não gozam desse benefício. O meu genótipo CC significa que eu me tornei candidata a um aumento de seis pontos no QI quando a minha mãe me amamentou. E, como, segundo as leis da genética, a minha filha necessariamente herdou um dos meus Cs, ela também se beneficiará do fato de eu tê-la amamentado. E, por falar nisso, onde foi mesmo que coloquei aquelas fichas de inscrição para a pré-escola?Eu nem sempre me senti confortável com relação ao meu genoma. Antes de cuspir no recipiente, liguei para várias grandes companhias de seguro para verificar se estaria prejudicando as minhas chances de conseguir cobertura. Elas disseram que não, mas isso é agora, quando quase ninguém conta com tais informações sobre a própria estrutura genética. Dentro de cinco anos, caso companhias como a 23andMe tenham sucesso, muito mais gente terá acesso a tais informações. E o que as companhias de seguro desejam saber não é exatamente o risco relativo do indivíduo contrair doenças?No mês passado, sozinha em uma sala da sede da 23andMe em Mountain View, na Califórnia, tendo pela primeira vez a minha senha, eu falei umas coisas meio sem sentido (propensão genética?) e caminhei pelo corredor para saber das novidades. Assim que visse os meus resultados, jamais poderia voltar atrás. Eu havia me preparado para o pior que pudesse descobrir naquele dia. Mas e se algo ainda pior surgisse amanhã?Alguns fornecedores de serviços de saúde argumentam que a população não está preparada para tais informações e que seria irresponsável fornecer tais dados sem a presença de um especialista que ajudasse a inserir esse conhecimento no seu devido contexto. E, em determinados momentos, enquanto reunia a coragem para avaliar os riscos que tenho de sofrer de câncer de mama ou Alzheimer, pude ver que tal argumentação faz sentido.A Navigenics, uma das companhias que deseja comercializar informações pessoais referentes ao DNA, tem a intenção de fornecer uma consulta telefônica com um conselheiro genético no momento de entregar os resultados. O serviço prestado pela companhia custa US$ 2.500 e ela a princípio fornecerá dados sobre 20 doenças.A DeCode Genetics e a 23andMe vão oferecer orientações. Todas as três companhias estão apostando que as pessoas desejarão informações instantâneas sobre novas descobertas. Eu sei que jamais conseguiria deixar escapar a oportunidade de preencher uma lacuna no meu quebra-cabeça genético.Decidi não submeter o DNA da minha filha ao exame - pelo menos não agora - porque não quero encarar nada a seu respeito como sendo predestinado.Se ela desejar tocar piano, quem se importa se não tiver uma afinação perfeita? Se quiser participar de uma corrida de cem metros rasos, para que saber se ela carece do gene característico dos velocistas? E será que eu realmente desejo saber - será que ela realmente gostaria de saber algum dia - que genes herdou de determinado genitor, avô ou avó?Mas não estou livre. O que quer que esteja espreitando nos meus genes, esteve lá durante toda a minha vida. Não olhar para isso seria como rejeitar alguma parte fundamental de mim mesmo. Compelida a saber (tendência genética?), naveguei rapidamente pelas telas de advertência do site. Li que não haveria nenhuma informação definitiva, e que novas descobertas poderia reverter as informações que eu recebesse neste momento. Ainda que o site me informasse que o meu risco de desenvolver uma doença fosse alto, poderia acontecer de não haver nada a ser feito quanto a isso, e, além do mais, eu não deveria encarar a informação como um diagnóstico médico. "Se, após levar esses fatores em consideração, você ainda desejar ver os seus resultados, clique aqui", informou a tela.Eu cliquei.Assim como outros usuários dos serviços da 23andMe, o meu primeiro impulso foi olhar as partes do código genético associadas às doenças que mais temo.Mas, ao me deparar com o gráfico de barras que mostra os genes bons em verde e os ruins em vermelho, tive uma sensação perversa de realização. O meu risco de desenvolver câncer do seio não é maior do que o da média, da mesma forma como o meu risco de padecer de Alzheimer. Vi que tenho uma tendência 23% menor do que a maioria das pessoas de sofrer de diabetes Tipo 2. E o risco de ficar paralisada devido a esclerose múltipla é quase nulo. Apresento um risco três vezes mais do que o indivíduo médio de sofrer da doença de Crohn, mas, ainda assim, a chance de que isso ocorra é inferior a 1%.Em suma, deparei-me com uma notável saúde genética, e eu sequer tinha freqüentado a academia nos últimos meses!Mesmo assim, o simples fato de estudar o meu DNA me deixou mais consciente dos riscos básicos de saúde que todos nós corremos. Abandonei o meu hábito de comer meus chocolates M&M no meio da tarde. E, a seguir, abri o meu Jornal Genético na parte relativa a doenças cardíacas para descobrir que tenho uma propensão 23% superior à média de sofrer um ataque cardíaco."Escolhas de estilos saudáveis de vida desempenham um grande papel em prevenir as obstruções que levam a ataques cardíacos", foi o que o site me informou.Obrigado, Jornal Gene. Mas de alguma forma até esse conselho banal soou mais forte quando a advertência veio do meu próprio DNA.De volta a Nova York, segui para a academia de ginástica, apesar de uma reportagem urgente que tinha que escrever, e das ainda não preenchidas fichas de inscrição pré-escolares da minha filha. Agora pelo menos sei que tenho mais tempo. Descobri um SNP que provavelmente indica uma grande longevidade.Mas, naquilo que passei a aceitar como sendo a lei genômica das médias, logo descobri que poderia muito bem passar esses anos extra de vida cega. Segundo os SNPs para degeneração macular que pesquisei na área do Genome Explorer do site da 23andMe, eu corro um risco quase cem vezes maior de desenvolver esta doença do que alguém que apresenta a mais favorável combinação A-C-G-T.E, ao contrário do conselho padrão do tipo alimentação-saudável-e-exercícios referente à saúde cardíaca, neste caso não há muito que eu possa fazer. Mesmo assim, achei o conhecimento a respeito do meu futuro potencial estranhamente confortador, ainda quando ele não se encaixava com aquilo que eu desejara. Pelo menos o meu risco de ter os dedos retorcidos quando for idosa não é grande como eu temia. Eu não tenho o SNP para artrite.Talvez eu simplesmente esteja digitando demais o teclado do computador.
(Tradução:Uol)(The New York Times, Uol.com/Mídia Global, 17/11)
artigo original aqui

quinta-feira, novembro 08, 2007

23 pares e mais um pouco...

Divulgação: hoje recebi um email informando sobre o nascimento de um blog sobre genes, genomas e a natureza humana. Batizado de 23 pares, apresenta-se o blog da Márcia Triunfol, bióloga, divulgadora de ciências e "n" outras habilidades, experiências e interesses, conforme ela comenta no "post" de inauguração "Coffee-Lattes, com muita espuma". O via gene deseja muito sucesso a mais esta iniciativa em prol da divulgação científica.
ana cláudia

quarta-feira, outubro 31, 2007

Prêmio Nobel-Abacaxi


James Watson e suas declarações desastrosas (retirado da Wikipédia):


"Watson declarou, em artigo publicado no Sunday Times Magazine em 14 de outubro de 2007, que está "inerentemente pessimista quanto às perspectivas da África" porque "todas as nossas políticas sociais estão baseadas no facto de que a inteligência deles é a mesma que a nossa – enquanto que todos os testes dizem que não é assim". Ele afirma desejar que todos fossem iguais, mas argumentou que "pessoas que têm de lidar com empregados negros descobrem que isso não é verdadeiro". Ele afirmou que não se deveria discriminar com base na cor da pele, porque "existem muitas pessoas de cor que são bastante talentosas, mas que não são encorajadas quando não obtêm sucesso no nível mais elementar.


"Não há nenhuma razão sólida para antecipar que as capacidades "intelectuais de pessoas geograficamente separadas em sua evolução provem ter evoluído de forma idêntica", escreveu. "Nosso desejo de reservar poderes iguais de raciocínio como alguma herança universal da humanidade não será suficiente para fazer com que assim seja.""


James Watson e suas desculpas (retirado da Wikipédia):


"Watson (...) desculpou-se por seus comentários, declarando: "para todos aqueles que extraíram uma inferência de minhas palavras de que a África, como continente, é de algum modo geneticamente inferior, posso somente me desculpar sem restrições. Não foi o que eu quis dizer. O mais importante, do meu ponto de vista, é que não há base científica para tal crença", e depois, "não posso entender como posso ter dito o que foi citado como eu tendo dito. Posso certamente entender por que as pessoas que leram estas palavras reagiram da forma que reagiram."


Em 25/10/2007, o filósofo Helio Schwartsman publicou um texto sobre uma recente declaração de James Watson (prêmio Nobel (pela estrutura do DNA) e prêmio Abacaxi (pelo preconceito)) em sua coluna no "site" da Folha OnLine. Pensei em escrever a respeito da declaração de Watson e da reação imediata que esta desencadeou, mas reconheci no texto do filósofo minhas impressões e opinião. Por falta de tempo e pela identificação com esta matéria, reproduzo aqui o que li na coluna do Hélio:


O DNA do racismo


"James Watson, o co-descobridor da molécula de DNA e ganhador do Nobel de 1953, pisou na bola. Em Londres para a divulgação de seu novo livro "Avoid Boring People" (evite pessoas chatas ou evite chatear as pessoas), ele deu declarações escandalosamente racistas. Acho que nem o Borat ou qualquer outro comediante querendo troçar do politicamente correto teria ido tão longe.


Em entrevista ao jornal britânico "The Sunday Times", o laureado disse na semana passada que africanos são menos inteligentes do que ocidentais e que, por isso, era pessimista em relação ao futuro da África. "Todas as nossas políticas sociais são baseadas no fato de que a inteligência deles [dos negros] é igual à nossa, apesar de todos os testes dizerem que não", afirmou.


Até aqui, com muito boa vontade para com Watson, poderíamos argumentar que o venerando pesquisador procura apenas exercer sua liberdade acadêmica, afinal, se há mesmo evidências a mostrar que negros são menos inteligentes, ele poderia ter um ponto. Mas já na frase seguinte ele mostrou que seu raciocínio não era exatamente científico: "Pessoas que já lidaram com empregados negros não acreditam que isso [a igualdade de inteligência] seja verdade".


Watson cometeu aqui pelo menos dois grandes pecados epistemológicos --deixemos por ora a questão moral de lado. Falou em "todos os testes" sem dizer quais e fez uma generalização apressada. Eu já lidei com patrões e empregados brancos, negros, amarelos e pardos, com pessoas burras e inteligentes, e posso asseverar que todas as combinações são possíveis.


Como era previsível, a reação às declarações de Watson foram efusivas. Ele foi desconvidado para vários eventos e houve até quem procurasse nos estatutos da Fundação Nobel uma brecha legal para cassar-lhe o prêmio. O experiente cientista, agora com 79 anos, acabou escrevendo um artigo em que pediu desculpas a quem tenha ofendido.


Não há dúvida de que Watson, reincidente em matéria de opiniões preconceituosas, merecia censuras. Receio, porém, que alguns de seus críticos tenham recaído nos mesmos erros que ele, isto é, afirmar coisas que não podem provar e proceder a generalizações problemáticas.


Os testes a que o laureado se referiu são provavelmente as tabelas de Richard Herrnstein e Charles Murray publicadas em "The Bell Curve" (a curva do sino ou a curva normal), de 1994, um dos livros mais explosivos da década passada. A obra pretendia sustentar que a inteligência medida por testes de QI é um fator preditivo de indicadores sociais como salário, gravidez precoce e problemas com a Justiça melhor do que o nível socioeconômico da família. O texto também afirma que negros dos EUA têm em média um QI mais baixo do que o de outros grupos sociais como brancos, judeus, asiáticos.


Sobretudo na imprensa, circulou a versão de que os autores diziam que a inteligência é dada pelos genes, mas Herrnstein e Murray não foram tão longe em seu determinismo. Eles afirmaram que permanece em aberto o debate sobre se e quanto genes e ambiente influem nas diferenças de QI entre os grupos étnicos --o que representa mais ou menos o consenso científico sobre a matéria.


"The Bell Curve" foi competentemente criticado por grande parte do establishment acadêmico norte-americano. De um lado, vieram as objeções conceituais, encabeçadas por cientistas como Stephen Jay Gould, que contestaram a idéia de que a inteligência possa ser reduzida a um teste de QI. Fazê-lo implicaria aceitar uma série de pressupostos de engolir, como o de que uma noção tão complexa possa ser traduzida num único número e que ela permaneça invariável ao longo de toda a vida do indivíduo. Aqui, estudar não serviria para nada além de acumular informações, coisa que computadores fazem melhor do que seres humanos.


Um pouco mais tarde, uma segunda leva de trabalhos, iniciada por Michael Hout e colegas da Universidade de Berkley, mostrou que os próprios dados de Herrnstein e Murray apresentavam problemas metodológicos, que exageravam a importância dos testes de QI como fator preditivo e diminuíam a do background familiar.


O debate é apaixonante, mas eu receio que, da forma como foi travado, ele esconda o ponto central, que é o de mostrar por que o racismo é errado. E essa é muito mais uma questão moral do que científica.


A evidência empírica não favorece o argumento da igualdade entre os homens, pela simples razão de que eles não são iguais. E opor-se ao racismo não pode depender de uma ficção filosófica que começou a ser escrita por John Locke no século 17, ao criar o conceito de "tábula rasa", segundo o qual os homens nascem como uma folha em branco, e que todo o conhecimento que adquirem, bem como as diferenças que acabam por desenvolver, é fruto das condições externas a que são submetidos. Um rápido passeio pelos rudimentos da neurologia mostra que já nascemos, senão prontos, pelo menos com uma série de estruturas mentais pré-definidas. E elas têm muito em comum, mas em certos pontos variam significativamente de pessoa para pessoa. Embora Locke seja um dos pais espirituais do liberalismo, a "tábula rasa" fez carreira entre pensadores de esquerda do século 20. Por alguma razão obscura, em vez de defender que todos devem ter os mesmos direitos (o que já estaria de bom tamanho), resolveram que a igualdade deveria ser um dado da natureza, mesmo que isso contrariasse o senso comum e as observações diretas.


É engraçado como estamos dispostos a aceitar diferenças entre pessoas (fulano é mais inteligente do que ciclano), mas não entre grupos étnicos. Em relação a alguns assuntos, comportamo-nos como se filhos não se parecessem com seus pais, como se não houvesse algo chamado hereditariedade, que em algum grau é dada pelos genes, e contribui para a expressão das mais variadas características de uma pessoa.


Não fazemos objeção a um juízo do tipo: negros são em média mais altos do que japoneses, mas basta alguém sugerir que os asiáticos tenham uma inteligência média (definida por testes de QI) superior à do grupo de ascendência africana para desencadear uma revolução. O mesmo vale para as aptidões femininas para a matemática ou a predisposição masculina para a infidelidade conjugal.


Médias são um conceito traiçoeiro. Representam um valor obtido a partir resultados válidos para vários indivíduos, mas que não podem ser extrapolados a nenhum indivíduo em particular. Na média, a humanidade tem um testículos e um seio. Nossa experiência ensina que é perfeitamente possível encontrar um indivíduo negro mais inteligente (por teste de QI ou qualquer outro critério) do que um branco anglo-saxônico, judeu, coreano ou o que for. Se de fato há uma predisposição de origem genética para a inteligência, como parece que há, ela não chega, exceto em casos patológicos, constituir uma barreira intransponível ao sucesso intelectual de ninguém. A vantagem de uma pessoa mais favorecida pelos genes pode ser facilmente revertida por outras características como a disciplina no estudo, para citar um único exemplo.
O argumento contra o racismo, o sexismo e outras chagas que desde sempre atormentam a humanidade deve ser moral. De outra forma, se um dia inventarem um teste confiável para medir a inteligência e ele mostrar discrepâncias entre grupos, o que acontece? O racismo estará legitimado?


Por maiores que sejam as diferenças entre indivíduos e grupos de indivíduos, quer elas tenham origem nos genes ou no ambiente (ou numa interação entre eles, como parece mais provável), o fato é que é em princípio errado prejulgar alguém por características (reais ou supostas) que não observamos nessa pessoa, mas no grupo ao qual consideramos que ela pertence.


Podemos ir um pouco mais longe e afirmar que o homem tem uma estrutura psíquica que favorece atitudes etnocêntricas e mesmo racistas. Pensamos, afinal, através de operações mentais de categorização e generalização. Se um membro da tribo vizinha uma vez me atacou, é evolucionariamente útil que eu parta do pressuposto de que todos aqueles que pertencem àquela tribo inimiga tentarão me agredir e antecipe o ataque. Só que esse tipo de raciocínio, que fazia sentido no passado darwiniano, perdeu inteiramente a razão de ser em sociedades modernas. Se ele já foi útil para manter-nos vivos, hoje, a exemplo da capacidade de armazenar energia na forma de tecido adiposo, é apenas um estorvo. Serve para separar e fomentar violência. As forças da civilização exigem que abandonemos essa forma primitiva de pensar e utilizemos a razão e não reações instintivas no trato com outros seres humanos. É isso que Watson, mesmo com toda sua genialidade científica, não foi capaz de fazer. "


Hélio Schwartsman, 42, é editorialista da Folha. Bacharel em filosofia. Escreve para a Folha Online às quintas.

segunda-feira, setembro 24, 2007

Sobre jornalistas e geneticistas na Nature Reviews Genetics

a última edição do periódico científico "Nature Reviews Genetics" traz uma publicação interessante sobre a comunicação entre jornalistas e geneticistas (seção Perspectives, ou aqui para quem tem acesso à revista). O título do artigo é "How geneticists can help reporters to get their story right" por Celeste Condit (Departament of Speech Communication, University of Georgia). Segundo a autora, este artigo visa explicar aos geneticistas as forças que moldam o noticiário científico, de forma a minimizar os problemas mais comuns: "Hype" (sensacionalismo científico), determinismo genético e discriminação. Parte do problema parece ser devido ao chamado "hype-space conflict", onde o jornalista tem que lidar com o conflito de usar o pouco espaço que tem apresentando ou 1) um conteúdo mais "chamativo" e "promocional" ou 2) mais informativo, descritivo e imparcial. Além disso, o artigo discute também a questão de reportagens que refletem tendências pessoais do jornalista, independente do conteúdo científico propriamente dito. Muito do artigo baseia-se na divulgação das idéias sobre determinismo genético e sobre raças humanas. O artigo conclui com uma pergunta:

"Grounds for hope arise from the willingness of many journalists to improve their ability to communicate about genetics in an effective fashion. Should geneticists themselves do any less?"

Nota de uma geneticista: concordo que temos que fazer a nossa parte no que diz respeito à divulgação científica "além da academia". Mas é importante notar que a sociedade espera que o geneticista comunique/divulgue ciência primordialmente através da publicação de artigos científicos (ao menos essa atividade é rotineiramente avaliada e exigida de um pesquisador). Deste ponto de vista, o geneticista tem que investir energia em 2 tarefas: comunicação para público especializado e comunicação para o público leigo. Provocação: quem tem que se esforçar mais? Na minha opinião, ainda é o jornalista, já que esta é sua atividade primordial, ou não é?


quinta-feira, setembro 06, 2007

via gene KIDS

Uma inovação (da minha parte pelo menos) para divulgar ciência no universo infantil. Sem tempo para atualizar os comentários do próprio via gene... será possível que o via gene kids tenha mais sorte? Só o tempo dirá... da minha parte fica a intenção e a disposição, com um pouco de organização há alguma chance de sucesso.
Está registrado o nascimento deste pequeno "baby-blog", que seja uma experiência divertida e uma oportunidade de treinar outras formas de comunicação da ciência.
O que pode ser mais infantil que GELATINA? "Abra a booooooca, é Royal!"


domingo, agosto 19, 2007

quem é a vítima?

A resposta, como sugere o texto abaixo, aponta para a sociedade brasileira, que financia bolsistas/cientistas à "fundo perdido"... mas esta resposta corre o risco de ser precipitada no cenário histórico de investimento e desenvolvimento em atividade científica no Brasil. Reconheço que o compromisso do retorno do bolsista ao Brasil (após realizar o Douotorado no exterior financiado pela CAPES, CNPq, etc.) é uma obrigação aliada à estratégia de capacitar o País em um recurso humano ainda raro: cientistas. Mas não posso deixar de fora a realidade do Brasil, onde o "doutor" convive com poucos, inconstantes e limitados recursos de financiamento de pesquisa científica. Além disso, a "fuga de cérebros" é fenômeno que atinge o mundo todo (exceto os EUA - centro de atração desses "cérebros"). A resposta pode ser menos óbvia do que parece...
Recorte e cole: notícia retirada do site da Folha Online:
"União cobra R$ 54 mi de ex-bolsistas do CNPq e Capes

[ANGELA PINHO da Folha de S.Paulo, em Brasília]

Desde 2002, o governo federal pediu a devolução de cerca de R$ 54 milhões que ex-bolsistas de doutorado favorecidos por ajuda oficial teriam recebido de forma irregular.

O levantamento da CGU (Controladoria Geral da União) envolve a Capes (Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior) e o CNPq (Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico) --principais fomentadores do benefício.

Os motivos dos processos variam de irregularidades como o abandono dos estudos até a falsificação de documentos. A maioria dos casos, porém, é de ex-bolsistas que fizeram doutorado no exterior e não cumpriram a norma de ficar no Brasil por igual período.

Os "doutores que se formam no exterior" foram alvo de crítica do presidente Luiz Inácio Lula da Silva. Ele disse haver "contra-senso" entre os que criticam o Bolsa Família e não a "bolsa de US$ 2.000 para um doutor se formar no exterior".

O número de cobranças é pequeno em relação ao de bolsas concedidas. Só o CNPq ofereceu 249.632 entre 2002 e 2006, em um total de R$ 2,6 bilhões. Mas o valor pode ser alto para uma só pessoa, e quem não paga ainda tem o nome enviado ao Cadin -banco de dados de devedores do governo.

É o caso de Cristina Campolina, coordenadora do curso de história da Universidade Federal de Minas Gerais. O TCU a condenou a devolver R$ 655 mil de sua bolsa de doutorado para a Universidade de Illinois (EUA) entre agosto de 1986 e fevereiro de 1991.

Em sua defesa, ela disse que vive em "extrema penúria financeira", mas não adiantou. O tribunal determinou que ela quite a dívida e lhe aplicou uma multa de R$ 22 mil. Campolina afirma que não terminou a tese porque seu orientador dizia que só aceitaria o trabalho se ele tivesse documentos inéditos, os quais ela nunca achou.

Diante da impossibilidade de quitar a sua dívida, ela diz que tentará revalidar os créditos do doutorado no Brasil e defender a tese na UFMG. Porém, como não cumpriu o prazo para a devolução do dinheiro --acrescido de juros pela demora no pagamento--, deve ser acionada pela Advocacia Geral da União.

É o mesmo caso do físico Ricardo de Paula e Silva Masetti Lobo. Em 2004, ele foi condenado pelo TCU a devolver R$ 184 mil. Lobo fez doutorado na França entre 1992 e 1996. Após apresentar sua tese, passou um período nos Estados Unidos e foi para Paris, onde vive hoje.

Embora afirme que há "excelentes" órgãos de pesquisa no Brasil, ele diz que desistiu de voltar porque, na época, não havia laboratórios em sua área de pesquisa no país -uma propriedade específica de "luz síncrotron", no campo da física de partículas. O TCU, porém, rejeitou seu argumento.

"Se a obrigação [voltar ao Brasil] não foi cumprida (...) significa que recursos pertencentes à sociedade brasileira, sabidamente escassos, foram empregados em proveito pessoal do bolsista e, até mesmo, em proveito do país que passou a abrigá-lo", disse na decisão o relator, Augusto Cavalcanti.

Lobo lamenta que a questão tenha chegado ao tribunal. "A discussão deixou de ser científica e virou administrativa." A Capes e o CNPq, porém, argumentam que a caso só vai ao TCU depois do fracasso de uma "negociação amigável".

O presidente da Capes, Jorge Guimarães, cita como medidas para tentar impedir que pesquisadores não voltem ao Brasil acordos com embaixadas para não renovar o visto de bolsistas e até uma análise mais criteriosa antes de conceder bolsas em áreas que o risco do não-retorno é maior, como economia.

O ministro da Educação, Fernando Haddad, fala também no programa de pós-doutorado criado pela pasta e na contratação de 10 mil professores para universidades federais desde 2003 como incentivos à permanência dos doutores no Brasil.

Para quem já tem as dívidas, contudo, o entendimento agora é com o tribunal."

terça-feira, agosto 07, 2007

contribuição asiática

Estudos das características morfológicas de dentes de hominídeos indicam, segundo artigo que será publicado na PNAS (Proceedings of the National Academy of Sciences), que a composição das populações humanas européias tem forte componente asiático. Novamento incluo o link para o site de notícias da Agência FAPESP comentando este artigo. Mais lenha para alimentar a questão da origem Africana x Asiática.
Trecho da reportagem da Agência Fapesp:
"Agora, novo estudo aponta que o homem moderno nem é tão africano em sua origem como se acreditava. Quem afirma é um grupo de pesquisadores europeus, após análise de mais de 5 mil dentes de hominídeos dos gêneros Australopithecus e Homo. Segundo o estudo, populações asiáticas tiverem um papel maior do que as africanas na colonização do continente europeu há milhões de anos"

quinta-feira, julho 19, 2007

um único berço: a África

Post-link só para circular nota sobre evolução humana. O viagene está temporariamente em marcha-lenta (lentíssima!). A previsão de recuperação para este segundo semestre é de 50%, caso contrário continuamos em primeira (marcha), não de ré - eu espero :)


Com o título: Mais africano do que nunca, o site da Agência Fapesp de divulgação científica publicou hoje uma nota sobre um estudoa da revista científica Nature que confirma a hipótese de origem única - na África - da espécie Homo sapiens (sabem de quem eu estou falando?)


Segue reportagem na íntegra:

"Estudando variações genéticas globais e medidas cranianas de diferentes regiões do mundo, pesquisadores da Universidade de Cambridge, na Inglaterra, e da Escola Médica Saga, no Japão, demonstraram que o Homo sapiens teve origem única: na África.

Os resultados da pesquisa, publicados na edição desta quinta-feira (19/7) da revista Nature, podem encerrar uma longa polêmica entre as teorias evolutivas antagônicas que tentam explicar a origem do homem moderno.


A teoria, conhecida como out of Africa (“saída da África”), defende que todos os habitantes do planeta descendem de um único grupo de Homo sapiens que teria deixado o continente africano há cerca de 2 mil gerações.

Por outro lado, a teoria multirregional, refutada pelo novo estudo, defende que diferentes populações de Homo sapiens teriam evoluído independentemente, em diversas regiões, a partir do Homo erectus, que deixou a África há 2 milhões de anos.


Os autores do artigo agora publicado afirmam que os resultados do estudo representam o golpe de misericórdia na teoria multirregional. Os pesquisadores estudaram a diversidade genética de populações humanas e mediram cerca de 4,6 mil crânios de coleções acadêmicas ao redor do mundo. A pesquisa mostrou que, à medida em que as populações se afastaram da África, houve uma perda da diversidade genética e das variações em atributos físicos.

Até agora, análises genéticas têm apoiado a teoria da origem única na África. Enquanto isso, mensurações anatômicas produziram resultados mistos. A nova pesquisa procurou cruzar os dois métodos. De acordo com o coordenador do grupo, Andrea Manica, do Departamento de Zoologia da Universidade de Cambridge, um dos principais argumentos da teoria multirregional foi refutado quando se verificou que houve perda de diversidade genética nas populações à medida em que os humanos modernos se afastaram da África.


“Alguns cientistas haviam usado dados de medidas cranianas para argumentar que os humanos modernos se originaram em locais múltiplos do mundo. Nós combinamos dados genéticos com novas medidas de uma amostra mais ampla para mostrar definitivamente que os humanos modernos são originários de uma única área da África subsaariana”, disse Manica.

Segundo os pesquisadores, a redução da diversidade genética conforme as populações se afastavam da África foi resultado de “gargalos” ou de eventos que temporariamente reduziram as populações durante a migração.

As mensurações dos 4,6 mil crânios provenientes de 105 populações mostraram que as variações não apenas eram maiores entre as amostras do sudoeste africano como decresciam na mesma proporção dos dados genéticos, à medida em que se afastavam do continente.


Para garantir a validade da evidência de origem única, os cientistas usaram seus dados de modo a buscar origens não-africanas em humanos modernos. “Tentamos encontrar uma origem adicional não-africana, mas isso simplesmente não foi possível. Nossos achados confirmaram que os humanos vieram mesmo de uma única área da África subsaariana”, destacou Manica.

O artigo The effect of ancient population bottlenecks on human phenotypic variation, de Andrea Manica e outros, pode ser lido por assinantes da Nature em www.nature.com. "

quinta-feira, junho 21, 2007

crise nas universidades...

viagene volta num post-relâmpago para uma nota sobre a atual crise nas universidades paulistas, onde manifestações diferentes com motivações diferentes têm criado um certo caos de comunicação e alimentam polêmicas sobre a legitimidade de invasões, greves, notas de repúdio, etc... fica-se com a impressão de que DIÁLOGO é coisa ultrapassada - avançado mesmo é INVADIR! Leia aqui um comentário de Geraldo Di Giovanni (professor da Unicamp) com o qual eu concordo em grande parte*.

*particularmente nunca vi nada errado em haver festas na universidade, mas sou de um tempo quase pré-histórico quando as festas eram eventos quase "artesanais", em horário de "matinê" e promoviam a integração cultural inclusive (como as famosas BIOART dos anos 90) e não super-produções da madrugada.

O blog Roda de Ciência está promovendo um debate sobre o tema este mês. Por favor inculam eventuais comentários aqui.

quarta-feira, abril 04, 2007

Orkut na Academia

Diretamente do "site" de notícias da Agência FAPESP:
Quem você conhece: a revolução da social network

04/04/2007 Agência FAPESP

O Instituto de Ciências Matemáticas e de Computação da Universidade de São Paulo, em São Carlos (SP), promove, no dia 5 de abril, às 11 horas, a palestra Quem você conhece: a revolução da social network.

O evento, que é aberto ao público, será apresentado por Orkut Buyukkokten, engenheiro de software e gerente de produtos do Google, que falará sobre o desenvolvimento do site de relacionamentos Orkut, com enfoque nos aspectos sociais e técnicos para manter um sistema que superou os 40 milhões de usuários no mundo.

Mais informações: eventos@icmc.usp.br
Viagene: é realmente uma revolução na internet esse Orkut, e tópico dos mais polêmicos na academia. Vale a pena conferir!

quinta-feira, março 22, 2007

Blog do Marcelo

Não é sobre o Marcelo Leite - desta vez... mas queria promover a divulgação do Blog do Marcelo Knobel "Diário de bordo: cultura científica EUA 2007" que foi criado para divulgação de uma aventura científica (ou o que o próprio denomina "cultura científica") nos Estados Unidos. Esta oportunidade surgiu como parte de um programa da Fundação Eisenhower (bolsa Eisenhower Multinações) e contemplou este professor do Instituto de Física da Unicamp.

Eis a saudação do viagene comentada no blog do Marcelo Knobel:

Parabéns pela iniciativa de submeter seu currículo à seleção e, obviamente, por ter sido selecionado. Boa sorte nesta viagem-aventura-científica e que sobre tempo para atualizar o blog (ferramenta extremamente "feliz" para uma oportunidade como esta). Vou fazer um "link" no Via Gene para esta nota da Unicamp e para o seu blog, OK? Espero que além de divulgar suas andanças pelo "caminho de Santiago" científico dos EUA, seu blog também tenha um papel importante como modelo de estratégia de divulgação científica e contribua para promover a validade esta atividade para nossa comunidade científica (a Unicamp já inova neste sentido, mas pré-conceitos ainda persistem). Quem sabe você consegue "emplacar" um blog científico no quadro de blogs da Folha de SP? Futebol, F1, gastronomia, política, etc. já estão contemplados há tempos... será a ciência desinteressante de ser "bloggada" ou serão os cientistas que resistem ao formato e à exposição nestas "condições" :). Enfim, sucesso!

A notícia veiculada pelo site da Unicamp pode ser lida aqui.

quinta-feira, fevereiro 01, 2007

língua-mãe ou madrasta?



"Should we therefore make additional efforts to incorporate scientific English into our culture or should we improve our native scientific language? There seems to be no easy solution, although both alternatives present considerable challenges for any non-English-speaking countries. "
ou seja:
"Devemos nos esforçar mais para incorporar o Inglês científico na nossa cultura ou devemos melhorar nossa linguagem científica nativa? Parece não haver uma solução fácil para esta questão, embora ambas as alternativas representam desafios consideráveis para qualquer país que não fala Inglês."
Vale a pena ler a discussão apresentada neste artigo da última EMBO Reports sobre o desafio de escolher entre o uso do idioma oficial (Inglês) ou da língua nativa em publicações científicas. Entram neste tema questões como índice de impacto, soberania nacional, visibilidade na comunidade científica, dificuldades no domínio da língua inglesa, etc.


Espero ter tempo para ampliar esta discussão no viagene, aguardem.




terça-feira, janeiro 30, 2007

ciência e a arte de falar simples: uma tentativa


De volta depois de 2 meses...

Texto inspirado no tema de janeiro para o blog Roda de Ciência: a arte de falar simples


Nunca fui escoteira... mas sempre quis ser. Conheci a prática do escotismo através da intensa convivência com amigos “lobinhos” - denominação dada às crianças de 7 a 10 anos que praticam escotismo - durante a minha infância e que se estendeu até a adolescência. Mas na minha época, ao invés da matilha, a opção feminina para o grupo escoteiro eram as Bandeirantes... também não fui bandeirante por nutrir algum preconceito, confesso: diziam que aí se praticavam atividades associadas a costura e cozinha (mal sabia eu o benefício de me habilitar nestas práticas, que agora me faltam...) e achei que estava muito distante do sonho da aventura de acampamentos e excursões na “selva”, no manejo de canivetes, cordas, lanternas e fogueiras, no contato com a natureza e no trabalho – e diversão – em equipe.

- E o que tem isso a ver com o tema “a arte de falar simples”?

A conexão se fez quando fui convidada para dar uma palestra sobre quem é o biólogo para um grupo escoteiro há quase 10 anos atrás. Senti-me tentada a aceitar o convite pelas razões “históricas” reveladas acima. Devo esclarecer que há no escotismo uma diferenciação de “patentes”, a partir dos ternos “lobinhos” até o “chefe-escoteiro”, e cabe ao escoteiro cumprir determinadas tarefas para receber um grau “superior”. Uma destas tarefas era “entrevistar um biólogo”, e para inovar, o escoteiro desta história, optou por apresentar um biólogo em “carne e osso” (no caso, eu) para a turma. E aí surgiu a oportunidade e a necessidade de adaptar o discurso acadêmico ao formato do “falar simples” para divulgar a ciência feita pelo biólogo. Será que o escoteiro poderia imaginar que a conversa seria sobre a vida e a arte das moscas varejeiras?!

O que parecia uma tarefa simples se transformava num desafio cada vez maior à medida que crescia minha consciência do abismo que pode haver entre estas duas linguagens de divulgação, a acadêmica e a informal. Por isso mesmo é preciso um artista para mediar esta transformação do conteúdo, e nem todos somos Charles Chaplins capazes de traduzir a complexidade da vida humana e suas relações através de obras primas que se revelam para todas as idades e “escolaridades”, numa linguagem “universal”.

Munida de um puçá*, um pôster, uma gaiola de moscas e mais algumas surpresas (como larvas e pupas), fui ao encontro deste desafio. Foi um começo meio desafinado, que foi se transformando conforme via os rostos das crianças e adolescentes respondendo ao mundo novo – do biólogo – que ia sendo apresentado ali. A curiosidade é realmente uma aliada inestimável para o divulgador de ciências e, escoteiros, além de sempre alertas, são criaturas extremamente curiosas (até por serem crianças!). Claro que uma gaiola cheia de moscas verdes e um “tupperware” com carniça e larvas esfomeadas foram elementos importantes para despertar essa curiosidade, seja pelo interesse no sistema biológico em si ou pela perspectiva “meio nojenta” – para quê serve isso?

*Visto que o tema é “falar simples”, fica o esclarecimento: puçá: ferramenta formada por uma vara e uma redinha de filó presa ao redor de um aro que serve para capturar pequenos insetos (classicamente associado à captura de borboletas, mas também serve para pegar moscas! ver foto do "post"); larvas: “filhotes” de moscas (fase do ciclo de vida da mosca, popular “verme”); pupa: casulo (fase do ciclo de vida em que ocorre a metamorfose, transformando a larva em mosca adulta).
Tupperware: potinhos de plástico com tampa que revolucionaram os anos 80!

Foi uma experiência inesquecível! Mostrar o ciclo biológico de um organismo, falar de classificação taxonômica, comentar o que são relações filogenéticas (não vale dizer que mosca varejeira “é prima” da mosca doméstica), que mosca tem DNA (inclusive na mitocôndria – mitoquê?), que DNA é uma estrutura dinâmica que conta histórias, histórias evolutivas reveladas por marcas que são passadas por gerações... isso tudo tão fascinante!

E como funciona isso? Interrompe uma pequena apontando para o puçá.

E dá-lhe procurar um inseto para que todos vejam um biólogo em ação. Sorte a minha eu ter conseguido pegar uma micro-mariposa (único inseto voador que assistia à palestra), enquanto me esforçava para não comprometer a figura do biólogo... mal sabiam eles que minhas habilidades com a pipeta (micropipeta, para ser exata) e um tubo eppendorf superam em muito minha desengonçada performance com o puçá (até porque pegar moscas varejeiras com puçá é tecnicamente mais fácil do que pegar mariposas ariscas).

Mas, apesar de divertido, descobri que o “falar simples” é uma tarefa complexa, e sendo arte, requer talento, dedicação e inspiração. Ser simples ao falar de ciência não é o mesmo que ser simplório... ou seja, existe uma linguagem científica, onde diferentes modalidades da ciência adotam termos próprios, o conhecido jargão, para definir conceitos e se expressar da melhor forma possível. O “falar simples” deveria traduzir completamente a linguagem científica? Acho que não é bem assim. No meu mundo ideal, o “falar simples” seria uma ponte para transportar o interessado (ou leigo?) para esse mundo particular, sem “facilitar” a ponto de entediar, nem improvisar a ponto de deturpar a informação. A linguagem científica se utiliza de termos próprios e desconhecidos do público geral para tentar traduzir a própria natureza, assim como Saramago nos provoca a consultar o dicionário para trilhar seus densos – e inspirados – escritos. A arte do “falar simples” está no sucesso de uma divulgação científica que não violenta a linguagem científica, que acrescenta conhecimento àquele que lê – promovendo uma ampliação do universo deste – atraindo-o para uma outra dimensão. Ser um divulgador de ciência não é ser um tradutor, é ser um artista.
Incluir comentários neste link.

quarta-feira, novembro 22, 2006

para ver na tv...

Nota interessante do Jornal da Ciência sobre programa de tv que vai ao ar amanhã discutindo temas polêmicos em genética:

Texto reproduzido na íntegra:

“Tome Ciência”, nesta quinta-feira: Faço o que meu gene manda?

Programa é transmitido às 8h, pela SescTV


A História documentou a necessidade de colonizadores e conquistadores de justificar, com base na ciência, a escravidão, o genocídio e a estratificação da sociedade. Hoje, pesquisadores e leigos perguntam se de fato as grandes mazelas da sociedade têm origem na genética. O comportamento violento, as tendências criminosas, o homossexualismo, a inteligência, o abuso de drogas, a esquizofrenia são herdados? Ou a educação e a cultura desempenham papéis predominantes?E ssa é uma discussão polêmica e apaixonada, debatida por defensores das duas principais correntes do pensamento.

Participantes:
Jorge Moll Neto, neurologista, coordenador da Unidade de Neurociência Cognitiva e Comportamental da Rede D'Or de Hospitais, co-autor, com o neurologista Ricardo Oliveira, de um mapeamento das emoções no cérebro.

Suzana Herculano Houzel, neurocientista do Departamento de Anatomia da Universidade Federal do Rio de Janeiro, autora de livros sobre o funcionamento do cérebro e nossas emoções e desejos.

Sérgio Smith, médico e psicólogo do Departamento de Neurofisiologia da Universidade do Estado do Rio de Janeiro.

Ricardo Waizbort, doutor em literatura, que trabalha com filosofia da biologia na Casa de Oswaldo Cruz, da Fiocruz.

A SescTV é transmitida pelo sistema NET digital nas cidades do RJ e SP (canal 90) e pela Net normal para o resto do país (verificar o canal de sua região ), no canal 3 da Sky, no 211 da DirecTV e no 10 do Tecsat. Em SP, também por UHF, pelo canal 14.

O encontro e a discussão destes temas promete...

terça-feira, novembro 21, 2006

email-denúncia: o ensino de biologia em risco?!

Reproduzo a seguir partes de um email denunciando a qualidade do ensino praticado em biologia. Se esse episódio é uma situação isolada ou ocorre de forma mais abrangente é discutível, mas não deixa de ser uma ilsutração triste de uma realidade possível no ensino de ciências (biologia, neste caso).
Achei pertinente trazer este tema à tona pela relevância e pela oportunidade de ampliar esta discussão num ambiente informal e democrático como o "blog". Gostaria de estimular que fossem "postadas" opiniões e comentários (inclusive respostas para algumas das questões "ensinadas" pelo ilustre professor de biologia - personagem "denunciado" nesta "matéria"). O mérito vai para a autora do e-mail pela sua maturidade em questionar a validade dos conteúdos apresentados pelo suposto mestre e sua independência e iniciativa para "buscar a verdade" pela rota alternativa: fora da escola. O relato é muito bem escrito e espirituoso até. Vale a pena conferir, mas alerto que podem ocorrer reações adversas como raiva, frustração, desânimo, indignação, entre outras... Mais uma sugestão de temática para discussão em foro mais amplo como o Roda de Ciência.
PARTE I

"Eu possuo um professor de Biologia que costuma fazer afirmações absurdas e sempre que o questiono ele finge não ter falado determinadas coisas (...) dá explicações ainda piores (...).

Entre muitas coisas, ele disse que cromossomos acrocêntricos não possuem satélite; que o sangue do tipo A é ácido e do tipo B é básico; que existe uma águia com 12 metros de envergadura; que tubarões possuem dentes do tipo siso...

(...) nas últimas aulas ele falou que as pálpebras são uma evolução de chifres. Questionei então como há animais que possuem pálpebras e chifres ao mesmo tempo, então ele disse que nesse caso não são pálpebras, e sim anexos da epiderme.

Gostaria então de saber se há alguma veracidade nisso (...)"


CONTINUA...

Parte II

"Infelizmente o ensino no país está todo errado. Acredito que não seja só na minha cidade, mas no Brasil inteiro segue-se a regra apostilas+macetes e o aprendizado fica pra segundo plano. Até metade do ano eu me irritava com isso, mas conseguia levar. Eu tinha uma visão meio inocente da coisa e era até egoísta - pensava que se eu cursasse Engenharia Mecânica na faculdade poderia me livrar de certas "responsabilidades".

Então quando chegaram as férias de metade de ano, minha mãe me deu um livro do Sagan (O Mundo Assombrado Pelos Demônios), e eu comecei a ler e procurar coisas diferentes. E quando recomeçaram as aulas comecei a questionar mais, e anotar no caderno para pesquisar depois sempre que algum professor falava algo absurdo demais. E o caso do professor de Biologia não foi único. Eu possuo outro (de Biologia também) que é todo místico e adora falar sobre milagres e lições de moral. Um professor de Inglês chegou a falar que o homem não foi à Lua (...). E a maioria não se importa em ensinar a matéria em si, apenas a mostrar como se resolve um exercício.

Quanto aos sisos do tubarão, estávamos numa aula sobre o aparelho digestivo. E como a digestão começa na boca, aprendemos os dentes. Então ele fez um desenho no quadro sobre os incisivos, caninos, molares... e falou "vocês reclamam quando tem que tirar 4 sisos, é porque não conhecem o tubarão que possui XXX dentes do siso" (não lembro agora qual a quantidade que ele falou). Ainda nessa aula, ele falou sobre muitas pessoas estarem nascendo já sem os sisos, e puxou para o lado da evolução. Falou que a galinha não voa porque a asa que ela tem funciona como braços e começou a comparar vários animais. Então disse das pálpebras - não lembro exatamente o que o levou a dizer isto, mas já estou acostumada a ouvir informações que não correspondem exatamente à matéria.

Os cromossomos acrocêntricos pelo menos na minha apostila possuem satélite (mas ele nos mandou riscar!), e pelo que eu pesquisei no Google também possuem. Aí resolvi imprimir e mostrar a ele. Neste dia foi o cúmulo, pois ele teve a cara de pau de dizer que nunca falou que eles não possuíam satélite. Mas ele até nos mandou riscar...

Sobre a ave de 12m de envergadura (que segundo ele vive em algum deserto dos EUA), perguntei a ele onde ele viu ou leu tal coisa, porque a maior ave do mundo vive na Amazônia, e a ave símbolo dos EUA que possui a maior envergadura, pode chegar no máximo a 2.25m. Então ele tentou se esquivar falando que viu num documentário. Eu perguntei qual. Ele disse que não lembrava o nome. Então perguntei qual canal da televisão, porque eu poderia facilmente ver na revista da programação qual programa era. Por fim ele acabou admitindo que o tal documentário PODERIA estar errado.

Este é um dos professores preferidos da maioria dos alunos, outro dia uma menina me falou vários absurdos porque eu e uma amiga costumamos rir das coisas que ele fala. O pior da história não é exatamente ele, é quase todo mundo querer desesperadamente passar em um vestibular sem necessariamente ter aprendido algo e todo esse esquema músicas+macetes... E ironicamente eu estudo em um colégio particular na capital do estado com o 2º menor índice de analfabetismo. (...)

(...)


Uma pequena novidade: eu possuo aula nos dois períodos (matutino/vespertino) e hoje para minha "sorte" as três primeiras aulas da tarde foram trocadas para três aulas seguidas de ninguém mais, ninguém menos que o "famoso" professor. Enquanto explicava os diferentes tipos de tecido, ele falou que a pressão interna no corpo é igual a pressão externa! Se fosse assim, quando nos cortamos o sangue não sairia pra fora. Já encontrei um bom site sobre o assunto, só preciso esperar minha família comprar tinta para a impressora e levarei isto para ele ler (espero que o faça)."
Obs: este texto foi publicado com a concordância da autora do email. A identidade dos envolvidos foi preservada para evitar constrangimentos desnecessários e não minimiza a autenticidade do relato e seu impacto.

sexta-feira, novembro 17, 2006

a entrevista na íntegra

Pensei em publicar no via gene a íntegra da entrevista concedida em Julho/06 para a revista Com Ciência Ambiental e assim estender um pouco mais este tema sobre "blogs" científicos. Pensei em divulgar o texto completo depois de refletir sobre o comentário do Luis Brudna (Gluón Blog) no "post" anterior: "Luis Brudna said... Tenho que melhorar minha divulgacao. Quase nunca sou citado. Se bem que meu blog tah cada vez mais balaio de gato. Tenho me desviado um pouco da ciencia. :-)".

Apesar de gostar de ver o via gene citado na "mídia" e em um veículo que agrega reportagens de qualidade, a nota publicada foi bastante econômica com relação ao universo de "blogs" científicos brasileiros (em expansão) e fiquei tentada a rever minhas respostas às questões da entrevista: como será que eu contribui para esta visão reduzida sobre a diversidade de blogs científicos?

Com algum alívio vi que indiquei os "links" do Ciência em Dia* como referência. Pensando bem, não sei porque não incluí os "links" do próprio via... mas talvez a Rita Nardy (responsável pela entrevista) possa um dia nos esclarecer porque optou por uma lista tão restrita (será que ela acessa o via? ).

Aproveito para agradecer publicamente à Editora Casa Latina pelo envio de um exemplar da revista!

ENTREVISTA:

Rita Nardy: Andei pesquisando os Blogs nacionais, e achei muitos bons blogs escritos por jornalistas (como o do Marcelo Leite e Salvador Nogueira) e poucos feitos por cientistas (destaque para o seu e o do Prof. Adilson, São Carlos). A Sra tem essa mesma percepção? Resposta: existem poucos Blogs Científicos de modo geral, independentemente do “autor” do blog ter formação formal jornalística ou científica. Para citar um exemplo, só no jornal Folha de São Paulo existem ao menos 2 blogs sobre futebol, 1 sobre cultura e 1 sobre política, mas nenhum sobre ciência**, apesar dos jornalistas Marcelo Leite e Salvador Nogueira – que você citou – serem colaboradores freqüentes deste veículo de comunicação. A minha percepção é que está havendo um aumento – discreto – de excelentes blogs científicos mantidos por cientistas/pesquisadores, principalmente associado ao interesse em promover divulgação científica de qualidade com novas ferramentas e em novos formatos (no caso o blog) e o debate de temas importantes envolvendo políticas científicas, produção de conhecimento, estratégias de pesquisa e fomento, questões acadêmicas, entre outros tópicos de interesse científico que nem sempre geram interesse jornalístico imediato, mas que estão presentes no dia-a-dia do cientista. Ultimamente tenho consultado mais blogs de cientistas do que de jornalistas (algo em torno de 6:1), mas ainda considero que o blog do jornalista Marcelo Leite é uma referência de blog científico brasileiro e contribuiu, direta ou indiretamente, como estímulo para a criação de outros blogs científicos (de cientistas). Por outro lado, é importante trazer para a discussão que o esforço de divulgação científica, principalmente associado ao formato “blog”, dificilmente reverte em reconhecimento acadêmico ou da comunidade científica, podendo desestimular o ingresso de pesquisadores nesta área, acredito que o mesmo não ocorre com o jornalista.

Rita Nardy: A sra. conhece alguma pesquisa feita sobre o tema ou cadastro de blogs de ciência no Brasil?
Resposta:
existe uma discussão em andamento no sentido de buscar formas de identificar e integrar os blogs científicos brasileiros, na intenção de formar uma rede de blogs científicos com conteúdos integrados e acessíveis a partir de uma plataforma operacional comum. Mas esta é uma iniciativa ainda embrionária que está sendo discutida por alguns blogs científicos. Pesquisa propriamente dita (atrelada a financiamento específico) ou cadastro formal de blogs de ciência no Brasil eu não conheço, mas um cadastro informal de blogs científicos pode ser encontrado nos “links” listados no blog do Marcelo Leite, do Osame Kinouchi & col.*** e outros.

Rita Nardy: O seu blog tem bastante consistência e informação, o que a motivou a criar o blog?
Resposta:
Obrigada pela opinião sobre o via gene. O que motivou a criação do blog foi a facilidade operacional deste recurso e a possibilidade de divulgar alguns conteúdos (informações, discussões temáticas, opiniões, etc.) antes restritos à esfera dos pesquisadores e alunos do laboratório de genética animal (via lista ou grupo eletrônico) para um “público” mais amplo interessado nestas mesmas questões acadêmicas e científicas. Além da divulgação, o blog promove maior interação através da janela de comentários, onde o “visitante” pode manifestar sua opinião, tornando-se um ambiente democrático e de conteúdos dinâmicos. Eu já tinha por hábito enviar comentários, opiniões, sugestões e reflexões sobre tópicos em ciência para a equipe do meu laboratório de pesquisa, via e-mail, então adaptar estes conteúdos e este hábito ao formato-blog só precisou quebrar a resistência do cientista à exposição em um novo ambiente, a internet.
Rita Nardy: Como percebe a resposta dos internautas aos temas que discute no seu Blog? (se possível citar alguns exemplos)
Resposta: temas mais amplos geram mais resposta (comentários) dos visitantes do blog. Nem sempre os temas que escrevo com maior entusiasmo e informação são os que geram maior número de comentários... engraçado, não? Alguns temas aparecem de forma recorrente em diferentes blogs científicos e normalmente são os que dão mais “ibope”, pois muitos dos internautas que comentam no via gene também possuem blogs científicos ou são presença constante no painél de comentários destes blogs. Vários blogs comentaram, por exemplo, sobre uma notícia da revista científica Nature listando os 5 blogs científicos mais populares, gerando uma ampla discussão entre blogueiros e internautas que rendeu painéis de comentários mais ativos. Até a cabeçada do Zidane no final da copa do mundo foi comentada desta forma disseminada e rendeu numerosos comentários, apesar do contexto científico ficar um pouco deslocado, neste caso.

Rita Nardy: A comunidade científica utiliza os blogs como fonte de informação?
Resposta: não acredito... depende do que se entende por “fonte de informação”. Sim, existem cientistas que consultam blogs como também consultam o site de notícias da FAPESP, o Jornal da Ciência da SBPC, a Folha Ciência do jornal FSP e outros sites, para ter um “apanhado geral” das notícias científicas em pauta e uma atualização sobre o andamento de pesquisas em outras áreas. Entretanto, segundo o registro de visitas do via gene, a maioria dos visitantes chega ao blog através de consultas em buscadores como o Google, a partir de uma ampla diversidade de palavras-chave e entram em páginas do blog por acaso. Com base nisso, avalio que a maioria dos visitantes do blog é esporádica e de não-cientistas (visitas recorrentes são uma minoria, mas normalmente de cientistas e especialistas/entusiastas em ciências).

Rita Nardy: Nessa "massa" confusa de informação que se transformou a internet, os blogs vem para facilitar o acesso a informação? Por quê?
Resposta:
no caso dos blogs científicos normalmente há uma “temática” que orienta os conteúdos apresentados e pode facilitar o acesso a determinado tipo de informação: o via gene normalmente dispõe sobre assuntos ligados à genética, evolução, bioinformática, políticas científicas, aspectos diversos da blogosfera científica, questões acadêmicas ligadas à pós-graduação e formação de recursos humanos para pesquisa científica, entre outros. Neste sentido, o blog promove a discussão e o acesso a informações dentro destas temáticas, principalmente. Mas há iniciativas que visam a discussão de temas de ciência e cidadania, além de assuntos de interesse amplo, incluindo geopolítica, comportamento humano e futebol, até. Essa é uma possibilidade do formato-blog, a liberdade de organização de conteúdos segundo a inspiração do autor.

Rita Nardy: Como o interneuta deve proceder para avaliar as informações constantes em um blog? (Exmplo no caso de ciências seria checar as informações do cientista em questão no currículo lattes, CNPq.)
Resposta:
é preciso ter alguma cautela, o blog não é necessariamente – nem pretende ser – uma fonte formal de informação científica, para isto existem publicações e veículos especializados. O blog é um ambiente mais descontraído onde o autor pode especular de forma mais livre dos rigores da publicação científica sobre um determinado tema. Sendo assim, a questão de “avaliar as informações constantes em um blog” não faz muito sentido… publica-se opiniões, especulações, críticas, e manifestações de qualquer outra natureza, conforme critérios próprios do autor do blog. Se o autor for um cientista, provavelmente estará vinculado a alguma instituição de pesquisa, terá o currículo disponível on-line (Lattes/CNPq) e suas “credenciais” poderão ser “checadas”, mas as “credenciais” que importam para um bom blog científico não são necessariamente as mesmas. Na minha opinião, a leitura de alguns dos comentários publicados em um blog é suficiente para se ter uma idéia inicial da sua qualidade como divulgador de idéias científicas.

FIM DA ENTREVISTA

* o Marcelo Leite apresentava uma listagem ampla incluindo diversos blogs e sites, inclusive o Glúon :)
** depois desta data (Julho/06), o jornal Folha de São Paulo incorporou novos "blogs" (pelo menos 5, mas nenhum científico, vale ressaltar).
*** este "blog", ao que tudo indica, foi desativado.
Observação: os asteriscos foram acrescentados posteriormente à entrevista, para incluir notas de atualização.

terça-feira, novembro 07, 2006

Com Ciência Ambiental


Foi publicada uma pequena, mas interessante, nota sobre blogs científicos (reprodução parcial neste link) no 4° volume (Outubro/2006) da revista Com Ciência Ambiental (Editora Casa Latina). Além de divulgar a matéria, com o privilégio de ver o Via Gene publicado num veículo de divulgação científica "tradicional", aproveito para divulgar esta nova revista, que acrescenta qualidade e excelentes reportagens ao universo da divulgação científica brasileira, com um foco especial para as questões ambientais. Desculpem o aviso com atraso (estamos em pleno Novembro e eu aqui divulgando uma notícia de Outubro...), mas o referido volume ainda está nas bancas e vale a pena conhecer a revista! Aproveito para agradecer ao contato da Rita Nardy que me consultou via e-mail e elaborou algumas perguntas quanto a minha experiência com o Via Gene e promoveu a publicação da Nota.
Abraços,
ana claudia

quarta-feira, outubro 25, 2006

4 notas sobre Crodowaldo Pavan


Rapidíssima: na última edição do Jornal da Ciência da SBPC (Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência) saíram 4 notas destacando a contribuição do cientista e geneticista Crodowaldo Pavan para a ciência Brasileira e mundial. C. Pavan ganhou recentementeo Prêmio Professor Emérito - Guerreiro da Educação (promovido pelo Centro de Integração Empresa-Escola - Ciee). As notas podem ser lidas aqui, aqui, aqui e aqui.

segunda-feira, outubro 23, 2006

garimpando ciência...

Uma nota rápida que vi hoje na Agência FAPESP sobre um programa que busca textos jornalísticos com enfoque científico. O projeto foi desenvolvido pelo LABJOR da UNICAMP, parece bem interessante, vale a pena conferir!
Pequeno trecho da reportagem:
Agência FAPESP - O Laboratório de Estudos Avançados em Jornalismo (Labjor) da Universidade de Campinas (Unicamp) desenvolveu um sistema capaz de detectar automaticamente matérias de ciência e tecnologia na mídia impressa, possibilitando uma avaliação da cobertura jornalística em termos quantitativos e qualitativos.
O mecanismo, batizado de Sapo (Science Authomatic Press Observer), foi apresentado na sexta-feira (20/10) durante o seminário “Estratégias para a divulgação científica na sociedade do conhecimento”, em São Paulo.

“Ele é capaz de ‘farejar’ edições on-line de jornais e descobrir onde está a ciência. Trata-se de um banco de dados que coleta, seleciona e organiza os conteúdos de ciência e tecnologia”, explicou Yurij Castelfranchi, do Labjor, um dos responsáveis pela criação do sistema.
Leia mais aqui.

sexta-feira, setembro 29, 2006

marca do penalti... gol do Daniel

um texto interessante do Daniel Doro Ferrante (Blog = It's equal but it's different) sobre os bastidores da publicação científica, focando a questão dos "rounds" de revisões e críticas argumentativas (por parte de orientadores, co-orientadores e colegas) aos quais um trabalho é exposto até assumir sua forma final como manuscrito que será submetido para publicação (da onde surgem novas rodadas de discussão envolvendo revisores anônimos e editores). Após incorporar mais algumas modificações, aí sim surge a formal FINAL do artigo que é publicada na revista científica. Como identifiquei vários pontos em comum entre a minha - parca - experiência e a reflexão do Daniel, resolvi deixar um "link" para o seu texto aqui. Aproveito para "ressuscitar" um "post" que comenta algo próximo a isso aqui (tudo bem... não é tão "próximo" assim...).

terça-feira, setembro 26, 2006

Oportunidade Jovens Doutores em São Paulo

Rapidíssima - para os jovens doutores bolsistas da FAPESP ou do CNPq, aqui vai uma boa notícia: lançado o programa Primeiros Projetos (ver chamada aqui), que oferece algum auxílio para despesas de custeio e capital (30 mil) além da bolsa. Lembra um pouco o extinto programa PROFIX do CNPq (que em 2002 disponibilizava 45 mil para o projeto de pesquisa, 2 bolsistas de Iniciação Científica e 1 de apoio técnico, 1 viagem internacional/ano para participação em evento científico, além da bolsa, por um período de 4 anos - um sonho de consumo de todo jovem-doutor, melhor que isso só um vínculo empregatício mesmo!!). Mas, o destaque aqui é para a iniciativa do "Primeiros Projetos"... em uma próxima oportunidade volto ao Profix (que deixou saudade, além de várias publicações e excelentes recursos humanos "no mercado" acadêmico).
é isso...

sexta-feira, setembro 15, 2006

Craig Venter em Petrópolis

Nota relâmpago: Craig Venter - um dos decifradores do genoma humano (tido como o BadBoy da genômica por ostentar a figura de cientista-mega-empresário capitalista, ao qual a mídia ainda acrescenta uma imagem de anti-acadêmico para polemizar ainda mais) estará no Brasil participando de um evento em Petrópolis, RJ, mais precisamente no LNCC (Laboratório Nacional de Computação Científica).

Apesar do chamariz (Venter), queria mesmo é divulgar o evento do LNCC:

Global Dialogues on Emerging Science and Technology (GDEST) - BIOINFORMATICS

informações básicas podem ser encontradas no "link" acima e a inscrição (vagas limitadas) pode ser feita neste "site".

deu no DOU (Diário Oficial da União)...

mais sobre a regulamentação do acesso ao patrimônio genético... aqui está a matéria que saiu ontem no Jornal da Ciência sob o título: "Publicada resolução que diminui burocracia para a pesquisa da biodiversidade" que representa um avanço no sentido de evitar o "enquadramento" de pesquisadores da biodiversidade brasileira como "piratas do patrimônio genético", evitando assim uma série de constrangimentos, mal-entendidos e conflitos de natureza variada entre pesquisadores e autoridades. Sobre esse assunto veja mais aqui e aqui e aqui e aqui (com entrevista) - os 3 últimos "links" são textos da Maria Guimarães (ver blog Ciência e Idéias).

Leia a íntegra da Resolução n° 21 de 12 de setembro:
“Conselho de Gestão do Patrimônio Genético
Resolução Nº. 21, de 31 de agosto de 2006
O Conselho de Gestão do Patrimônio Genético, tendo em vista as competências que lhe foram conferidas pela Medida Provisória nº. 2.186-16, de 23 de agosto de 2001, e pelo Decreto nº. 3.945, de 28 de setembro de 2001, e o disposto no art. 13, inciso I, do seu Regimento Interno;
Considerando que diversos tipos de pesquisas e atividades científicas poderiam enquadrar-se sob o conceito de acesso ao patrimônio genético para fins de pesquisa científica simplesmente pelo fato de utilizarem ferramentas metodológicas moleculares para a sua execução de modo circunstancial e não propriamente porque seus objetivos ou perspectivas estejam relacionados com o acesso ao patrimônio genético;
Considerando que a finalidade dessas pesquisas e atividades, assim como seus resultados e aplicações, não interferem no principal objetivo da Medida Provisória nº. 2.186-16, de 2001, que é a garantia da repartição justa e eqüitativa dos benefícios resultantes da exploração econômica de produto ou processo desenvolvido a partir de amostras de componentes do patrimônio genético, resolve:
Art. 1°
As seguintes pesquisas e atividades científicas não se enquadram sob o conceito de acesso ao patrimônio genético para as finalidades da Medida Provisória nº. 2.186-16, de 2001:
I - as pesquisas que visem elucidar a história evolutiva de uma espécie ou de grupo taxonômico a partir da identificação de espécie ou espécimes, da avaliação de relações de parentesco, da avaliação da diversidade genética da população ou das relações dos seres vivos entre si ou com o meio ambiente;
II - os testes de filiação, técnicas de sexagem e análises de cariótipo que visem a identificação de uma espécie ou espécime;
III - as pesquisas epidemiológicas ou aquelas que visem a identificação de agentes etiológicos de doenças, assim como a medição da concentração de substâncias conhecidas cujas quantidades, no organismo, indiquem doença ou estado fisiológico;
IV - as pesquisas que visem a formação de coleções de ADN, tecidos, germoplasma, sangue ou soro.
§ 1º. As pesquisas e atividades científicas mencionadas neste artigo estão dispensadas da obtenção de autorização de acesso a componente do patrimônio genético.
§ 2º. O critério estabelecido nesta Resolução tem a finalidade exclusiva de orientar o enquadramento destas atividades sob a Medida Provisória nº. 2.186-16, de 2001, sem prejuízo do atendimento das exigências estabelecidas em outros instrumentos legais, bem como em tratados internacionais dos quais o Brasil seja Parte.
Art. 2°. Esta Resolução entra em vigor na data de sua publicação.
Marina Silva
Ministra de Estado do Meio Ambiente”
(Assessoria de comunicação do Ibama).

sexta-feira, setembro 08, 2006

Internet e Academia: the good, the bad & the ugly

Apesar de ter sugerido este tema, temo que identificar os aspectos bons (“good”), ruins (“bad”) e horríveis (“ugly”) da relação internet e academia seja uma tarefa subjetiva e muito influenciada pela experiência individual. Além destes, existem ainda os aspectos “polêmicos”, que dificultam a atribuição de adjetivos. Enfim, estou curiosa para descobrir quais questões seriam consenso nesta ciranda de setembro do Roda de Ciência e se há controvérsias, e quais os argumentos? Esclarecimentos prévios (talvez desnecessários?): ACADEMIA aqui se refere ao ambiente acadêmico ou universitário, onde predominam as atividades de ensino e pesquisa, voltado para a formação de recursos humanos, no sentido mais amplo que o termo “formação” compreende. E INTERNET se refere ao conjunto de ambientes e ferramentas virtuais em ampla expansão e diversificação que tem revolucionado a comunicação e o acesso à informação, no sentido mais amplo que o termo “revolucionar” compreende.

GOOD
De modo geral, a INTERNET promove o acesso quase irrestrito à informação (pessoas, opiniões, bancos de dados, artigos, instituições, formulários, “softwares” e aplicativos para uso “on-line” ou “downloads”), a operacionalização deste acesso através de sofisticadas ferramentas de busca (tipo Google, PubMed-Medline, Blast – para os entendidos em sequenciamento :), Wikipedia e outros), a realização de um “n” número de operações (compras/comércio, movimentações bancárias, ensino à distância, vídeo-conferência, “uploads” de documentos, envio de mensagens instantâneas ou via correio-eletrônico) e outras inúmeras atividades (“blogs” incluídos) que nem me atrevo a tentar listar, pois o risco de soar incompleta é grande, dado o grau de inovação das iniciativas em tecnologia da informação. O grande e inegável benefício da INTERNET é a DEMOCRATIZAÇÃO do acesso à informação (não necessariamente o Conhecimento, mas este também pode estar incluído aí) e à comunicação. Invocar a democratização nem sempre significa que não haja um público excluído (seja devido à censura institucional, seja por falta de infra-estrutura básica (computador+provedor)), mas esta situação ocorre a despeito da realidade tecnológica disponível.

A minha impressão atual é de que a Academia tem uma relação íntima e altamente dependente com a Internet. O uso de informação on-line e atualizada já é um vício acadêmico, a comunicação via e-mail permite o gerenciamento de listas/grupos de discussão (de um laboratório, uma classe, um curso, um departamento, da universidade, etc), o contato direto com pesquisadores/professores, a transferência de diferentes conteúdos em uma variedade enorme de formatos (arquivos), além de – supostamente – preservar o sigilo desta informação, e onde cada endereço eletrônico deveria corresponder a uma única identidade.

Páginas da “web” dedicadas a disciplinas, cursos e universidades ou institutos de pesquisa podem ser verdadeiros catálogos com informações sobre praticamente tudo relacionado ao tema. Na página da UNICAMP, por exemplo tem-se acesso desde o regimento geral, e despachos da administração até o cardápio do “bandejão”, sendo possível consultar ramais telefônicos e contatos (email) de funcionários dos mais diferentes departamentos e cursos. Eu mesma já encaminhei uma mensagem de e-mail diretamente ao reitor da UNICAMP há alguns anos para comentar a questão dos recém-doutores e o reconhecimento da sua contribuição nas atividades de pesquisa e ensino da Universidade (para a qual recebi uma resposta quase em tempo real!).

Ainda na UNICAMP, uma iniciativa recente é a digitalização das teses de mestrado e doutorado defendidas na instituição e disponibilizadas via arquivo pdf. As minhas teses de mestrado e doutorado já foram “downloadadas” 30 e 47 vezes, respectivamente, impressionante. Estou curiosa para saber quando (e se) a tese de doutorado do jornalista de ciência Marcelo Leite estará disponível para “download” :). Em uma consulta relâmpago me deparei com o seguinte título: “No “mundo dos jornalistas”: interdiscursividade, identidade, ethos e generos”, de autoria de Jauranice Rodrigues Cavalcanti (tese apesentada para obtenção do título de doutorado), com 98 “downloads” e 370 visitas (fiquei no chinelo... :)). Consulta à palavra-chave “BLOG” gerou apenas um resultado (Entre o publico e o privado : um jogo enunciativo na constituição do escrevente de blogs da internet) de um doutorado em lingüística, mas já confirma que a academia “pousou” seus olhos vigilantes e interrogativos nesta “modalidade” de divulgação on-line. Registre-se ainda 6 títulos para “internet e educação”.

O cadastro e a busca de pesquisadores e grupos de pesquisa operacionalizado pela plataforma Lattes do CNPq é outra experiência que tem tido uma enorme repercussão na comunidade científico-acadêmico, seja pela sua obrigatoriedade seja pela disponibilidade de um extenso banco de currículos com dados completos e atualizados (uma vez que estas informações são consultadas nos julgamentos de propostas de pesquisa).

O portal CAPES de acesso a periódicos científicos é outro ambiente da internet que compõe a linha “democratização” do conhecimento científico, promovendo o acesso ao conteúdo de inúmeros periódicos científicos – mais ainda pode ser melhorado – a um conjunto de instituições consorciadas. Além deste formato de acesso restrito a assinantes ou consórcios, iniciativas de promover o acesso aberto a publicações científicas de alto impacto figura entre um dos maiores benefícios da relação internet-academia (ver exemplo aqui da PLoS – Public Library of Science).
Da minha área de atuação uma das contribuições mais evidentes e significativas com relação ao desenvolvimento de projetos de pesquisa em genética e biologia molecular é o GenBank, um banco de dados que cadastra sequências nucleotídicas (mais de 100 Gb – gigabases - de informação em 2005) e uma variedade de ferramentas de busca e análise destes dados. Um verdadeiro portal para desenvolvimentos em bioinformática, sendo um banco de dados de referência para projetos de caráter mais específico (como o banco de genomas mitocondriais AMiGA).

O ensino à distância é uma realidade mais recente, e extremamente popular no caso de universidades particulares, que representa uma inovação na relação professor-aluno (polêmicas à parte, incluo esta atividade sob a guarda de “GOOD”).

Poderia facilmente me estender sobre o benefício da relação internet-academia (pois é o que predomina, na minha opinião), mas não é este o propósito do comentário, mas sim refletir que esta relação “saudável” nem sempre é regra e outros aspectos chamam a atenção...

BAD
Mas... e o que dizer de verdadeiros fenômenos de popularidade como portais de relacionamento social (Orkut) e afins? Salas de bate-papo (ou “chats”), comunicadores instantâneos como o Messenger, Skype, e similares, grupos eletrônicos, como o Yahoo Groups e inúmeros outros aplicativos ou ambientes “on-line” que promovem alucinadamente a comunicação via rede mundial de computadores (blogs, incluídos?)? Algumas destas atividades chegam a ocupar o “status” de pragas acadêmicas, devido à interferência que podem causar quando competem pela atenção do usuário (aluno ou pesquisador ou funcionário) com as “tradicionais” atividades de ensino e pesquisa, função primeira da academia. Sob a perspectiva do uso democrático e consciente dos recursos virtuais, limitar o acesso à Internet, instituindo regras de uso e censura de “sites” ou atividades específicas, parece violar o benefício maior da rede: a comunicação livre.
Mas, por mais que se queria preservar a liberdade do uso da internet (eu tenho defendido esta “causa” sempre que me confronto com situações de possível “mal-uso” do recurso), há de se reconhecer que abusos são REAIS, freqüentes, diversificados e podem sim comprometer o andamento de atividades acadêmicas. Não acredito que inovações da comunicação – mediadas pela internet - possam promover “desvios de comportamento” que transformem indivíduos satisfatoriamente integrados ao ambiente acadêmico em viciados integralmente absorvidos pela Internet (“chat maníacos”, “bloggeiros”, “orkuteiros” e outros “internáuticos” de plantão), apesar de reconhecer que existem “riscos” e até profissionais especializados em tratar de “viciados em Internet” (seja lá o que for isso...). A via do diálogo pode ser uma estratégia eficiente se houver disposição das partes envolvidas – o agente e o gerente.

Patologias à parte, é possível gerenciar o “bad” da Internet na academia, desde que respeitadas algumas regras básicas para uma convivência saudável, no laboratório de pesquisa ou na sala de aula. Assim como se desliga um celular numa sessão de cinema, o uso de recursos de Internet durante o “expediente” acadêmico deveria priorizar o aprendizado e a construção e divulgação de conhecimento científico-acadêmico. A escolha em utilizar o recurso de forma consciente pode ser estimulada, ao invés de “castigar” o mau-uso com restrições e censuras (há diversas instituições ou departamentos que bloqueiam eletronicamente o acesso a determinados “sites” como solução para minimizar abusos de uso da Internet, será que resolve?).

UGLY
Os vilões de praxe estão representados pelos inúmeros e constantes vírus de computador e variantes que contaminam a correspondência de e-mail e outros ambientes de Internet como spams, ad-wares e afins, incluindo mensagens na forma de corrente e propagandas comerciais, ideológicas e inutilidades de natureza variada.

As atividades comentados em “BAD” também podem ser promovidas à classificação “UGLY” quando ocorre o uso indiscriminado da infra-estrutura computacional (normalmente cara) mantida pela academia numa dimensão de larga-escala e com a explícita conivência institucional. Descrevo um episódio (sem dar nome aos santos...): ao participar de um concurso público para vaga de professor universitário na universidade XXX, procurei a biblioteca da instituição para fazer um levantamento bibliográfico e preparar a prova didática (uma aula sobre um tema sorteado com 24hs de antecedência) tive 2 surpresas: 1) havia na biblioteca uma grande quantidade de computadores com acesso IRRESTRITO à Internet disponível para a comunidade acadêmica, predominantemente alunos (horário: 9h30m) e 2) TODOS os computadores estavam ocupados e acessando páginas do Orkut (horário: 12h30m).

No primeiro momento achei que estava no primeiro mundo: computadores modernos para todos, promovendo a consulta ao acervo da biblioteca e a periódicos eletrônicos, porém sem restrição de acesso (o que diferia da estrutura disponível em algumas bibliotecas da Unicamp, onde apenas podia-se navegar pelo sistema de bibliotecas da instituição). Poder consultar emails, ler uma notícia de jornal, visitar algum “blog”, trocar algumas idéias via messenger naquele computador poderia transformar a própria biblioteca num ambiente ainda mais interativo, atraente à comunidade acadêmica por prover o acesso à www, propício para a troca de informações, enfim, ampliar o benefício da internet para atender tanto aos interesses acadêmicos – primordialmente - quanto à diversificada gama de interesses daquele integrante da academia, o que promove o bem-estar e a qualidade das relações entre instituição e membros.

No segundo momento constatei a triste (na minha opinião) realidade: não havia diversidade, o interesse em acessar a internet convergia integralmente, sem exceção, para as páginas do “site” de relacionamentos Orkut. A cena: todos os computadores ocupados, a funcionária da biblioteca me informa que se alguém (eu, no caso) precisar usar o computador para uma consulta aos acervos ela pede que o orkuteiro “libere espaço”. Um tanto constrangedor, não?!

Enfim, a internet na academia deve seguir um padrão liberal ou mais controlado? Será que estamos preparados para gerenciar nossa “liberdade” (ter liberdade para usar o recurso é diferente de fazer “mau-uso” do mesmo)? Será que estamos amadurecidos para fazer escolhas e ampliar os benefícios da relação academia-internet?
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