quarta-feira, fevereiro 17, 2010

há cinco anos nascia o via gene...

"Parabéns prá você... nesta data querida..."

Aos trancos e barrancos da vida acadêmica, vai sobrevivendo com muita alegria e satisfação o blog via gene.

Comemoro nesta postagem seus 5 anos de vida! Apesar de estar longe dos "top 10" melhores blogs de ciência brasileiros, talvez o via gene possa se orgulhar de estar entre os 10 primeiros... em idade... :)

Enfim, o via precisa melhorar seus assuntos, sua regularidade, sua frequência de postagem (faltou alguma coisa?), mas não tem problemas com sua persistência (3 x 1)!

um abraço a todos que ainda prestigiam, visitam e comentam no via gene (foi um privilégio contar com vocês ao longo destes 5 anos),

ana claudia


terça-feira, fevereiro 16, 2010

ciência, academia e violência

Tiroteios em escolas e universidades são frequentemente noticiados na midia internacional, quase sempre ocorrendo nos Estados Unidos. Aí está o filme-documentário "Tiros em Columbine"do polêmico diretor e ativista político Michael Moore que não me deixa mentir. Claro que a realidade brasiliera também noticia - e com certa frequência - a ocorrência de tiroteios e mortes em escolas (uma amostra, outra amostra), normalmente motivadas por questões envolvendo tráfico de substâncias ilícitas e questões "territorias" envolvendo gangues formadas nas escolas ou mesmo fora delas.

Mesmo assim, considerando este "traço" da cultura americana (conforme a visão de Moore), sempre me surpreende uma notícia de violência explícita como ocorreu semana passada na Universidade do Alabama, EUA. Mais surpreendente porque os holofotes não focaram em adolescentes introspectivos, nem estrangeiros de comportamento anti-social, mas em uma docente e pesquisadora de ~40 anos de idade, com reconhecida capacidade científica, incluindo experiência acadêmica na famosa universidade de Harvard, prêmios científicos e sócia (junto com o marido) de uma empresa de biologia molecular e celular, uma neurocientista. Esta cientista, professora assistente de biologia, foi - armada (!) - a uma reunião com uma comissão formada por outros docentes da instituição para discutir sua permanência na universidade. Nos Estados Unidos, a sistemática de contratação de docentes pelas universidades inclui um longo período probatório (que pode chegar a até 10 anos, se não me engano) como professor assistente, ao término deste período o docente é avaliado com relação à sua produtividade em pesquisa, qualidade e esforço como docente e atuação em serviços (algo como aqui conhecemos por atividades de extensão). Caso esta avaliação indique que o docente atingiu (ou superou) as metas previstas, ele fará parte do quadro de docentes permanentes (passando de Professor Assistente para Professor Associado ou "Tenured Professor") da instituição, sendo garantida a - tão desejada - estabilidade no emprego*. Note-se que nas Universidades Federais brasileiras estes mesmos termos, Professor Assistente e Prof. Associado, não possuem a mesma definição adotada nos Estados Unidos (Assistente = com mestrado; Associado = livre-docente; entre os dois figura a posição do Adjunto = com doutorado); e o período de estágio probatório é de apenas 3 anos.

Voltando ao caso americano: durante a tal reunião, a professora que estava sendo avaliada realizou uma série de disparos matando 3 pessoas e ferindo outras 3 (uma em estado grave). Pela divulgação na mídia, a motivação do crime foi a resposta negativa da comissão avaliadora quanto à promoção da titulação acadêmica da solicitante, Dra. Amy Bishop. 

Muita informação está sendo apresentada sobre a personalidade de Amy Bishop, que era tida como extremamente arrogante (mas especula-se que era uma cientista brilhante e uma docente dedicada), sobre um episódio violento do seu passado (aos 20 anos ela foi considerada inocente pela morte do irmão, de 18, por ter disparado uma arma "acidentalmente"...) e sobre a possibilidade dela ser doente mental ou estar sob o efeito de anti-depressivos. O que inspirou este texto foi a postagem do blog Terra Sigillata, de Abel Pharmboy, UA Huntsville Dr. Amy Bishop holds active NIH R15 AREA award. Outro texto relacionado é o "post" mais recente Amy Bishop UAH case: What role should personality or collegiality play in tenure decisions? Ambos os textos estão repletos de comentários com opiniões e curiosidades sobre o sistema acadêmico norte-americano. Talvez um pouco distante da nossa realidade, mas vale a pena dar uma olhada, especialmente quando a violência traz como protagonistas professores de biologia.  

Um trecho extraído do blog de Abel Pharmboy em que ele cita uma entrevista com um professor de psicologia da Universidade do Alabama que foi publicada no jornal Decatur Daily:

"In today's Decatur Daily, staff writer Eric Fleischauer has an extended interview with UAH psychology professor Eric Seemann. You really should read the whole thing because it provides an inside view of Bishop's personality and relationships. But here is a critical passage:

Despite her excellent research ability, Seemann was not surprised she struggled to obtain tenure.

"Amy was kind of hard to get along with," he said. "I've talked to people who said, 'Wow, she can be really arrogant,' or be really headstrong. I knew that to be true. But at the same time she was brilliant. She was really one of UAH's rising research stars. People I know in biological sciences would say, 'She's a great researcher, but she's lousy to work with.' "

She was brilliant and she knew it.

"At one meeting I was with Amy, she was complaining to a group of us. She said she was denied tenure not because she was a lousy researcher -- she's not, quite the opposite -- and not because she didn't have good classes, she believed she did -- I think some might say otherwise -- but because she was accused of being arrogant, aloof and superior. And she said, 'I am.' "


É ou não é de deixar qualquer um perplexo?

abraços aos eventuais leitores de todas as horas,

ana claudia

* Richard Dawkins na obra "A grande história da evolução" comenta que haveria uma "degeneração" das estruturas cerebrais de alguns acadêmicos durante o desenvolvimento que se segue ao contrato permanente (ou efetivação). pg. 432 da edição em português da Cia das Letras :)  

segunda-feira, fevereiro 08, 2010

Vôo improvável...

Nota curiosa do cotidiano de um laboratório de genética molecular:

Hoje estávamos (eu e meus alunos) dedicados a fazer uma extração de DNA para testar um novo protocolo experimental. Eu falando da importância de realizar esse procedimento em um ambiente limpo e livre de "n" possíveis comtaminações para que a extração do DNA das nossas amostras fosse bem-sucedida e assim todos os outros procedimentos de genética molecular que se seguem a uma extração.

Nestas análises, o controle do que está acontecendo no ambiente "macro" (luvas, tubos, reagentes, gelo, centrífugas, pinças, ponteiras, micropipetas, etc.) é fundamental para tentarmos saber o que pode estar acontecendo no ambiente "micro" (as interações moleculares dentro de um tubinho com capacidade máxima para 1ml e meio - esse é o nosso MAIOR tubo!).

Então, lá estava eu nessa conversa toda, cheia de controles (todas as janelas e portas fechadas - nesse calor ABSURDO que anda fazendo - para evitar as tais possibilidades de contaminação do nosso ambiente de trabalho por sujeiras microscópicas quaisquer) quando adentra um gaviãozinho (!!!) no laboratório por um pequeno vitrô... passarinho (tipo pardal) e morcego eu já vi entrar em laboratório, além dos inúmeros insetos, camundongos e tradicionais lagartixas de parede, mas gavião? E ainda por cima o bicho parecia manso... ou no mínimo desorientado. Ele encontrou uma janela aberta, planou até ela e... voltou para se aninhar em uma bandeja com meia dúzia de tampões feitos de gaze e algodão que são utilizadas para tampar (tampão = tampar) frascos ESTÉREIS (descontaminados!). Que bicho estranho, parece que preferiu ficar no laboratório a sair para a natureza selvagem. O dito cujo acabou sendo convidado a se retirar quando a bandeja onde estava foi levada para fora (ele nem se incomodou de ir de carona). Que eu saiba, não voltou ao laboratório, mas voltou para uma varanda próxima e parece querer ficar por aqui mesmo!

O gaviãozinho parece com este da foto, mas não sou especialista então não arrisco nenhuma tentativa de identificação taxonômica... vou consultar os ornitólogos de plantão para tentar descobrir qual é a espécie de gavião-de-laboratório. Este simpático penado da imagem acima chama-se Falco sparverius, popularmente conhecido como quiri-quiri. Soube que são especializados em caçar insetos (entre outras coisas), ainda bem que ao entrar no laboratório não atacou nossas preciosas amostras (umas moscas varejeiras que morreram pelo bem da ciência - alguém se importa que varejeiras morram?).

Enfim, fico na torcida para que o gaviãozinho encontre seu lugar ao sol (longe do laboratório) e para que as nossas extrações de DNA tenham funcionado e participem ainda de muitas dissertações, teses e artigos científicos!


quinta-feira, fevereiro 04, 2010

pão na chapa

Em 2010 faz 20 anos que ingressei na universidade, no curso de Ciências Biológicas da UNICAMP, turma 90!

Graças à internet, podemos manter contato, planejar encontros e trocar emails sobre concursos públicos (!) - por incrível que pareça este tema é recorrente nas nossas comunicações.

Mas eu queria mesmo era falar do pão na chapa. Na época em que estava na graduação esse era o pedido tradicional no "café da manhã" na cantina do Bello (cuja estrutura física não existe mais ao lado do prédio do IB, resta apenas na memória de quem por lá passou algumas - ou inúmeras - tardes agradáveis embaixo dos flamboyants - estudando, fazendo trabalhos em grupo ou tomando cerveja (!!!!!) é... isso mesmo, naquela época a cerveja e a universidade coexistiam - pasmem). Ah é, havia o truco (que eu nunca consegui aprender a jogar - uma falha na minha formação).

Voltando ao pão na chapa: hoje vivi um momento de nostalgia quando fui procurar uma papelaria em um local da cidade de Sorocaba chamado de "Largo do Divino". Apesar de estar em Sorocaba há ~2 anos, devo ter passado 95% do meu tempo no trecho casa-trabalho-casa, portanto ainda existe uma Sorocaba completamente inexplorada e desconhecida por mim. Há uma capela antiga muito simpática (que parece ter uns 140 anos) que é a alma do bairro, e a casa do "Divino", claro. E nas ruas do bairro tudo faz referência (ou reverência) ao Divino: Drogaria do Divino, Papelaria do Divino (era a que eu estava procurando), Lanches Divino (esses prometem...), e outros vários nomes com o mesmo "sufixo". É engraçado como isso gera uma "identidade visual" marcante, dá uma impressão que você entrou em outra dimensão... nessa dimensão tem uma padaria chamada... panicenter (não sei o que poderia ter acontecido com a padaria do Divino... ), onde comi um saudoso (veja bem, eu não disse saudável...) pão na chapa acompanhado de um pingado (ou café com leite).

Acabei fazendo este "link" acidental entre Sorocaba e meus idos anos da graduação, tudo por causa de um pão na chapa (será que existe alguém que nunca comeu um pão na chapa?). Mas assim aproveito para falar um pouco da cidade que abriga o novo campus da UFSCar que trouxe na carona professores e estudantes de várias regiões do Brasil. Sorocaba nunca mais será  a mesma, nem nós!

Em boa hora: parabéns aos formandos das primeiras turmas dos cursos de Ciências Biológicas (Licenciatura e Bacharelado) e Turismo! Que vocês ainda possam se encontrar nos próximos 10, 15 ou 20 anos para lembrar dos dias em que comiam pão na chapa num trailer improvisado (espero que estejam todos empregados nas datas acima mencionadas!).  

A postagem hoje só não mencionou que o pão com ovo também era outro sucesso da culinária da cantina do Bello! Mas esse assunto fica para outra oportunidade. Afinal este seria um blog científico, não gastronômico (muito menos de gastronomia universitária: pão com ovo, pão na chapa, miojo, bandeijão, cachorro-quente da tia Maria, etc.).

Bom início de ano

domingo, dezembro 13, 2009

40% dos estudantes brasileiros não têm acesso à internet, mostra pesquisa

Vejam só:

Dados do IBGE divulgados sexta-feira na Folha-OnLine mostram que mais de 40% dos estudantes brasileiros não tinham acesso à internet em 2008.

Entre os estudantes, a principal razão para estarem desconectados é o fato de não terem acesso a um computador (46,9%). Para pessoas com a faixa etária acima dos 40 anos, as principais razões eram desinteresse e dificuldades com o uso.

A reportagem completa está aqui.

REFLEXÃO:
Sempre penso nisso (mas não sabia dos dados oficiais) quando me deparo com declarações de que os blogs científicos podem auxiliar na educação de ciências... mas com qual abrangência? Acho que talvez seja mais "educativo" um grupo de alunos tentar montar um blog científico... como era atraente (ou motivador) fazer um jornalzinho na escola (quem já teve essa experiência?).

quarta-feira, dezembro 09, 2009

Identificação baseada em DNA ("DNA-based id")


Algumas impressões sobre o encontro sobre DNA barcoding que ocorreu na FAPESP na semana passada e outras histórias do passado:

Além do meu interesse em falar um pouco mais deste assunto, fui provocada pela Maria Guimarães (via comentário na postagem anterior), a compartilhar minhas impressões sobre a técnica de análise de DNA barcodes (no original "...o que você acha dos barcodes? o simpósio mudou alguma coisa na tua percepção?"). Aliás, recomendo uma visita ao blog da Maria (ciência & idéias) para ver o relato - muito bom - que ela faz sobre o encontro.

Maria, o simpósio não mudou muito a minha percepção sobre as análises de DNA barcodes... na verdade, eu venho acompanhando discussões nessa área há algum tempo e fico atenta a algumas mudanças no discurso original (face às inúmeras discussões e polêmicas que os artigos originais de 2003 promoveram) e, claro, aos avanços obtidos nas áreas de caracterização de biodiversidade e outras aplicações menos audaciosas - mas muito interessantes do ponto de vista científico (como você bem comentou o exemplo apresentado pelo Dr. Eduardo Eizirik sobre a identificação de itens de dieta alimentar de felinos através desta técnica).

A primeira vez que vi o Paul Hebert (idealizador da "proposta" de utilizar um trecho que gene COI como "identificador" taxonômico) foi no congresso da Sociedade Americana de Entomologia (ESA) de 2004, em Salt Lake City, onde ele proferiu uma palestra com o título: "Probing life diversity with DNA barcodes" (dá para acessar um arquivo gravado desta palestra se você for membro da sociedade). A reação da platéia (sistematas, taxonomistas, geneticistas e outras criaturas do mundo da entomologia) foi bem crítica, com vários questionamentos sobre a validade da metodologia proposta e sua pretensa "universalidade" para resolver todos os problemas de identificação do mundo biológico. Na platéia estava um pesquisador que eu admiro muito, Dr. Felix Sperling (atualmente na Universidade de Alberta, no Canadá), que possui um amplo conhecimento científico sobre taxonomia e sistemática de borboletas, marcadores moleculares e evolução. O Dr. Sperling apresentou uma série de recomendações (ele era famoso por tecer seus comentários na forma de recomendações, e foi um dos primeiros críticos da idéia de P. Hebert no seu formato original) que poderiam trazer maior "robustez" à análise de DNA barcodes: obter a caracterização de uma região maior do DNA mitocondrial (não apenas de 650 pares de bases do gene COI); usar outros métodos além do Neighbor-joining para obter árvores filogenéticas e etc. (minha memória não vai muito além...). Enfim, a impressão que tive na época foi de que P. Hebert foi divulgar sua idéia em uma comunidade não muito receptiva, onde pesquisadores com uma longa história na análise de marcadores moleculares, incluíndo sequências de COI e outros genes mitocondriais, divergiam da idéia de que seria possível identificar um marcador UNIVERSAL para discriminar todas as espécies animais.

P. Hebert continua até hoje este esforço de divulgação da sua proposta (frente a platéias menos resistentes, talvez) com a intenção de criar novas oportunidades de incorporar uma etiqueta de identificação molecular às diferentes espécies que compõm a  biodiversidade existente no planeta (com um foco sobre os ditos países megadiversos, claro).  Mas o discurso já mudou bastante (inclusive já havia mudado em 2004, como bem havia observado o Dr. Sperling, com relação aos artigos originais): a taxonomia - baseda na análise de caracteres morfológicos - permanece como uma força importante que não será substituída pela análise do DNA; outros genes (além de COI) têm sido incorporados à análise dita de DNA barcodes (16S e outros genes mitocondriais, regiões nucleares como ITS, etc.); outros métodos de análise dos dados foram incorporados (a análise de redes de haplótipos apareceu em uma das palestras), enfim, o DNA barcoding "stricto senso" parece que está se modificando em prol de uma abordagem mais ampla e - possivelmente - mais informativa. Esta é uma das minhas impressões sobre o que foi apresentado no evento.

Uma coisa que me incomoda um pouco é a idéia de novidade contida na análise de "DNA barcodes"... há certamente uma caráter inovador nesta proposta: a questão da larga-escala é novidade. Obter etiquetas moleculares para 10.000 espécies de aves é uma proposta que pode ser operacionalizada a partir de uma plataforma similar às utilizadas em genômica. Associar estudos de caracterização de biodiversidade com  plataformas de sequenciamento de DNA foi uma "sacada" de mestre pois otimiza de forma significativa a obtenção de informações genéticas específicas (= da espécie).

Por outro lado, muito que que tem sido identificado como contribuição da análise de DNA barcodes é, no meu entender, um legado das análises de marcadores moleculares de forma geral. Me incomoda um pouco o fato de se confundir uma análise tipicamente de Sistemática ou Filogenia Molecular (que seria a tataravó do DNA barcode) com a idéia do barcode. Da mesma forma, identificações taxonômicas baseadas em DNA (em inglês, DNA-based id) são abordagens que já vêem sendo conduzidas há mais de 15 anos (isso com relação a insetos, se formos falar de microorganismos, esta prática deve ter mais de 30 anos). Então neste ponto, não há novidade. Volto a falar do Dr. Sperling para citar um artigo que ele publicou em 1994 (quase 10 anos antes de P. Hebert cunhar o termo DNA barcodes) onde ele identifica uma série de espécies de importância forense (Sperling, FAH , GS Anderson and DA Hickey (1994). A DNA-based approach to identification of insect species used for postmortem interval estimation. Journal of Forensic Sciences 39: 418-427). Outro estudo interessante que conta com a participação do Dr. Sperling trata da caracterização estrutural e evolutiva de um trecho do DNA mitocondrial (envolvendo os genes COI e COII) de insetos (Caterino, MS, S Cho and FAH Sperling (2000). The current state of insect molecular systematics: a thriving Tower of Babel. Annual Review of Entomology 45: 1-54).

Ainda algumas outras publicações com o título que remete à identificação baseada em DNA:

2001. Wells, J.D., and F.A.H. Sperling. DNA-based identification of forensically important Chrysomyinae (Diptera: Calliphoridae). Forensic Science International 3065: 110-115;

2001. Wells, J.D., T. Pape, and F.A.H. Sperling. DNA-based identification and molecular systematics of forensically important Sarcophagidae (Diptera). Journal of Forensic Sciences 46: 1098-1102;

2001. Wells, J.D., F. Introna, Jr., G. Di Vella, C.P. Campobasso, J. Hayes, F.A.H. Sperling. Human and insect mitochondrial DNA analysis from maggots. Journal of Forensic Sciences 46: 685-687

Enfim, acredito que a análise de DNA barcodes possui em enorme potencial, mas seu impacto será maior ou menor de acordo com os diferentes desafios que diferentes grupos taxonômicos apresentam e é necessário termos consciência disso. Além disso, há desafios e mistérios (mais ou menos conhecidos) que assombram o mundo do DNA e dos marcadores moleculares, como os pseudogenes. Como eles podem ser importantes nesta discussão sobre DNA barcoding? Uma revisão importante surgiu recentemente num artigo intitulado: "Many species in one: DNA barcoding overestimates the number of species when nuclear mitochondrial pseudogenes are coamplified" (PNAS, 2008 vol. 105 no. 36 13486-13491). Quem me alertou sobre este artigo foi o Professor Dalton de Souza Amorim, durante participação em outro encontro promovido pela FAPESP na ocasião dos 10 anos do programa Biota (Biota +10).

Vai uma foto que obtive num dos site do Professor Felix Sperling, deve ser de uns 10 anos atrás, pois ele está bem do jeito que o conheci em 2000 no Congresso Internacional de Entomologia que foi em Foz de Iguassú. Foi nesse congresso que ele me mostrou o artigo do Caterino et al. 2000 (e eu estava toda feliz com a publicação do meu segundo artigo), e em anos posteriores tive a oportunidade de re-encontrá-lo em outros eventos científicos. Pena que esse ano não vou conseguir participar do Encontro da Sociedade Americana de Entomologia (que ocorre na próxima semana em Indianápolis). Enfim, Cinderela já virou abóbora a essas horas e amanhã cedo ainda tenho que dar aula... Maria, obrigada pela provocação. um abraço aos eventuais leitores deste espaço.



domingo, dezembro 06, 2009

DNA barcoding na FAPESP


Na semana passada houve um evento de dois dias chamado "The Biota-FAPESP International Symposium on DNA Barcoding". O primeiro dia foi mais dedicado à divulgação dos últimos avanços em relação à análise dos "códigos de barras da vida" em plantas e, no segundo dia, o foco foi sobre alguns amplos projetos envolvendo animais, como o "All Birds Initiative (ABBI)"  e o "Fish Barcode of Life Initiative (FISH-BOL)", além de uma excelente palestra com o Dr. Laurence Packer (York University, Canada) que tratou do uso desta técnica em abelhas considerando uma abordagem de Taxonomia Integrativa (linha distinta da Taxonomia - alfa ou clássica ou tradicional (termo aliás repudiado pelos taxonomistas que já consultei, informalmente)). Ainda na sexta-feira (dia 4/12), foram apresentados alguns trabalhos desenvolvidos por pesquisadores brasileiros sob o título: "Uses of DNA barcoding and potential applications for research in Brazil", incluindo um primeiro conjunto de palestras com os professores Dr. Fabrício Santos, Dr. Eduardo Eizirik e Dr. Cláudio Oliveira e um segundo conjunto de palestras com a Dra. Mariana Lúcio Lyra, Matheus Pepinelli e a Dra. Cristina Miyaki.


Dentre as autoridades do mundo do "DNA barcoding", estiveram presentes (e deram palestras) o Dr. Paul Hebert (University of Guelph) e o Dr. David Schindell (do CBOL/Smithsonian Institution).


O evento foi organizado pelas professoras Dra. Mariana Cabral de Oliveira, Dra. Cristina Miyaki e Dra. Lúcia G. Lohmann do Instituto de Biociências da USP.


Esta postagem é só uma pequena nota para incluir algum comentário mais atual ao via gene que anda sofrendo por conta da "falta de dar conta" da autora. Mas volto em breve para comentar sobre algumas impressões gerais do evento.


Notas que não posso deixar passar: encontrei os blogueiros Maria Guimarães e João Alexandrino participando do evento, isso foi muito bom! E também pude colocar em dia algumas conversas com a professora Maria Cristina Arias, que me introduziu no mundo do sequenciamento de DNA nos idos anos 90 (acho que nos conhecemos em 1996, apesar de que eu já havia ouvido muito falar dela).


espero que alguém ainda esteja captando os comentários do via... :)

domingo, agosto 30, 2009

Resumo dos trabalhos do 55° CBG

Clique aqui para ver o resumo do Congresso Brasileiro de Genética sobre estudos do gene COI (genoma mitocondrial) de marsupiais e clique aqui para acesso ao resumo sobre uma experiência didática para o ensino de genética baseada na biografia do Prof. Crodowaldo Pavan.

Estes dois trabalhos serão apresentados em forma de painél amanhã no 55° Congresso Brasileiro de Genética, em Águas de Lindóia.

Até lá!

ana claudia

sábado, agosto 01, 2009

o que ver no Congresso de Genética

Pessoal,
Desculpe-me quem achou que que haveria uma análise comentada da programação do 55 Congresso Brasileiro de Genética. O que eu pretendia com este "post" era apenas sugerir a quem estiver em Águas de Lindóia durante o evento (30 de Agosto a 2 de Setembro) que visite 2 painéis:
1) CRODOWALDO PAVAN: A BIOGRAFIA COMO PROPOSTA DE INTEGRAÇÃO INTERDISCIPLINAR NO CURSO DE LICENCIATURA EM CIÊNCIAS BIOLÓGICAS
AVALONE, MCK, OLIVEIRA, CR, PRANDINI, A, ROCHA, A, FERNANDES, HL, LESSINGER, AC
código: EN025
2) CARACTERIZAÇÃO DE "PRIMERS" TAXON-ESPECÍFICOS PARA OTIMIZAR A AMPLIFICAÇÃO DA REGIÃO DENOMINADA "DNA BARCODE" EM MARSUPIAIS NEOTROPICAIS
BARBAN, JV, CARMIGNOTTO, AP, LESSINGER, AC
codigo: GA 163
Ambos serão apresentados oficialmente na segunda-feira, dia 31 de agosto, entre 18 e 20 horas.
O primeiro trabaho trata de uma experiência que comentei muito brevemente aqui quando deixei uma mensagem sobre o falecimento do Prof. Crodowaldo Pavan..
um abraço
viagene

quinta-feira, maio 28, 2009

fazendo o de sempre...

O que estou fazendo agora? Preparando a aula de amanhã, lendo os textos de segunda-feira, torcendo para as larvas virarem moscas logo (é, até isso eu faço...), corrigindo provas, cobrando resumos dos alunos (é até esta semana!), pensando em novos experimentos para dar vazão às "velhas" idéias, pensando em novas idéias para resolver velhos problemas... enfim, estou fazendo o de sempre! E apesar de sempre fazer isso (e mais alguma coisa), não há uma rotina muito concreta na vida científica e acadêmica, são novidades e desafios diferentes a cada dia, "pepinos" (coitado deste membro das cucurbitáceas, fadado à representar os problemas do cotidiano) e realizações te esperam no dia seguinte (claro que isso também acontece com todo mundo que resolve levantar da cama e fazer alguma coisa, não é exclusividade da vida na universidade... mas ainda acho que a universidade abriga uma diversidade de acontecimentos e oportunidades ímpar, impossível morrer de tédio... (talvez morrer de raiva ou morrer de rir seja mais fácil :)). Mas hoje o dia reservou uma notícia especial: meu primeiro orientado (quer saber mais?), que atualmente cursa um programa de doutorado nos Estados Unidos, acaba de ser contemplado com um prêmio acadêmico por seu histórico em pesquisa, ensino e serviços. Esse reconhecimento me leva a pensar que fazer "o de sempre" e dedicar-me a esta vida que escolhi traz enorme satisfação. Esse premiado aluno é de São Sebastião do Paraiso (MG), me deu vontade de comemorar como um tradicional pãozinho com manteiga Aviação (uma marca registrada da cidade).

sábado, abril 11, 2009

O que Mendel queria com as ervilhas?

Reproduzo aqui uma mensagem que enviei a estudantes dos cursos de Ciências Biológicas que assistiram a minha última aula e tiveram uma breve apresentação sobre Mendel (o Pai da Genética), sob uma perspectiva... mas o interessante sobre essa história é que existem discussões atuais e bem fundamentadas sobre o que - afinal de contas - Mendel queria com as famosas ervilhas? E há versões diferentes... Além do comentário provocando os estudantes no sentido de promover a leitura de artigos científicos a respeito, indico aqui também um blog (História da Ciência) que traz uma apresentação bastante completa sobre o contexto social, cultural e histórico em que Mendel se inseria (leia aqui). A foto ilustra o botânico Karl Wilhelm von Nägeli que, de acordo com uma versão da história, foi responsável por induzir Mendel a estudar uma espécie de planta com um sistema reprodutivo extremamente complexo (e que não "obedecia" as Leis de Mendel).

Eis a mensagem:

"Pessoal,

Lembram-se da aula de hoje? Foi contada uma versão sobre a história de Mendel, sua investigação na busca da compreensão de padrões gerais de herança baseada na condução de experimentos com cruzamentos controlados e análise das classes fenotípicas e proporções fenotípicas recuperadas nas gerações F1, F2, etc.

Na aula foi apresentada uma versão dos fatos, normalmente a mais difundida e amplamente aceita. Mas comentei que há estudos que trazem uma interpretação diferente dos fatos, trazendo divergência e tornando esta história inconclusiva em vários aspectos importantes... o que faz com que a história da ciência e seus personagens sejam tão fascinantes quanto as próprias descobertas científicas e seus desdobramentos.

Indico aqui um artigo publicado no ano passado (outubro)*, na revista científica Journal of Heredity, que trata exatamente de um estudo que apresenta o "lado b" (usuários de MP3 e afins talvez não entendam a analogia...) ou seja, uma interpretação alternativa sobre onde Mendel realmente queria chegar com seus experimentos (baseando-se inclusive na análise da correspondência de Mendel a um botânico famoso da época chamado Nageli).

Especialmente interessantes são a Introdução do artigo e o texto do item "The Hieracium Enigma", recomendo aos mais curiosos esta leitura."

*devo ter me enganado com a data da publicação, pois a referência é deste ano (2009):
Journal of Heredity 2009:100(1):2–6.

em busca do tempo perdido...


é possível dar aulas, pesquisar e escrever um blog científico, simultaneamente? Quem sabe a resposta?
o via gene está em busca de opiniões e experiências ...

alguém se identifica com a figura?

:) ana claudia

sábado, abril 04, 2009

Novo blog jornalístico sobre ciências - Folha/UOL

O site da Folha de São Paulo - UOL publicou hoje uma nota sobre um novo blog de ciências chamado LABORATÓRIO, vale a pensa dar uma olhada.
ana claudia

Crodowaldo Pavan 1919 - 03/04/2009

Até ontem vivia Crodowaldo Pavan,

até ontem era parte da história viva da Genética no Brasil,

Ontem terminou... e hoje Pavan está na nossa memória,

na memória do aluno de graduação que fomos - inspirados por palestras que convocavam o jovem estudante de biologia a ver na ciência um caminho a seguir,

na memoria de quem somos agora - já no meio do caminho, trabalhando para provocar a curiosidade científica em outra geração de alunos de biologia e contando histórias sobre a nossa caminhada e, principalmente, dos caminhos trilhados por pessoas que construiram o conhecimento científico que hoje estudamos.


Crodowaldo Pavan foi uma destas pessoas. Elaborar sua biografia não é a intenção desta nota, mas foi um projeto proposto a um grupo de alunas do curso de Licenciatura em Ciências Biológicas da UFSCar - Sorocaba, com o objetivo de resgatar conceitos de genética básica através do estudo da biografia de quem dedicou a vida estudando biologia. Por conta de um trabalho de uma disciplina de graduação, jovens estudantes tiveram a oportunidade de observar o Prof. Crodowaldo Pavan (na época com 88 anos) falar de ciência com um inesgotável entusiasmo típico da juventude. Crodovaldo Pavan possuia inúmeras excelentes qualidades, como atestam - também inúmeras - publicações sobre sua biografia, na minha memória, ficará sempre a imagem de um professor carismático que sabe falar ao jovem e conquistá-lo para a vida científica.
Esta é uma qualidade e tanto.

Destaco aqui uma nota do Vice-Presidente da República que vi hoje no jornal:

"O Brasil perdeu um grande filho com a morte do cientista Crodowaldo Pavan. Suas pesquisas, especialmente na área da genética, destacaram-se no mundo inteiro e conquistaram, para ele e para o Brasil, o respeito da comunidade científica internacional. O País que todos queremos para nossos filhos e netos precisa de brasileiros como Crodowaldo.
Meus pêsames a seus familiares e admiradores.
José Alencar Gomes da SilvaVice-Presidente da República Federativa do Brasil"

A aventura de fazer ciência perde um grande idealista e provocador (que nos provoca a fazer ciência :)), mas as idéias continuam naqueles que o conheceram e que ainda conhecerão sua história (neste sentido, esta é uma tímida contribuição e um convite para que mais histórias sejam contadas).


um abraço,

ana claudia

terça-feira, dezembro 23, 2008

divulgação - pós-graduação

Pessoal,

sem desculpas... o viagene anda (aliás, não anda, está parado...) perdido numa calmaria sem fim, perdeu inclusive boas possíveis oportunidades de divulgação neste segundo semestre, uma delas uma entrevista pelo caderno de ciências do Jornal "A Tribuna" da cidade de Santos (São Paulo) sobre blogs científicos e outra uma palestra da simpática divulgadora de ciências (posso chamá-la assim?) Maria Guimarães que tratou do tema na sua apresentação da II Semana da Biologia da UFSCar - Sorocaba em novembro.

em algum momento pretendo resgatar o tempo perdido e retomar uma rotina mais digna de um blog científico - mas não será agora - escrevo apenas para divulgar neste instrumento (se há ainda alguma divulgação no texto publicado por aqui...) a página do Programa de Pós-Graduação em Diversidade Biológica e Conservação da UFSCar - campus Sorocaba:

www.ppgdbc.ufscar.br

onde consta uma base de informações importantes sobre o programa e estão divulgadas notas importantes sobre o exame de seleção (datas, programa, estrutura, docentes-orientadores, etc.)

voltarei em breve com mais tempo e textos...

abraço,

ana claudia

terça-feira, agosto 12, 2008

Diversidade Biológica e Evolução

Registro aqui uma ótima notícia que recebemos da CAPES há poucas semanas sobre a aprovação da proposta de pós-graduação (nível Mestrado) em DIVERSIDADE BIOLÓGICA E CONSERVAÇÃO na UFSCar - campus Sorocaba.
A notícia também foi divulgada via site da UFSCar e pode ser lida aqui..A relação dos novos cursos de pós-graduação aprovados pela CAPES no último APCN (aplicativo para propostas de cursos novos) pode ser vista aqui. É interssante ressaltar que dentre os cursos novos, foram aprovadas outras duas propostas envolvendo a palavra Diversidade Biológica (ou Biodiversidade): 1) Diversidade Biológica e Conservação no Trópicos (Universidade Federal de Alagoas) e 2) Ecologia e Conservação da Biodiversidade (Universidade Estadual de Santa Cruz em Ilhéus, BA). Dos cursos "antigos" esta palavra também compõe o nome dos programas de pós-graduação da Universidade Federal do Amapá (Biodiversidade Tropical) e da Universidade Federal do Amazonas (Diversidade Biológica), que contam com programas de Mestrado e Doutorado, notas 4,0. Como "prata da casa", aproveito para citar outro curso da UFSCar que também envolve a temática da bodiversidade e que atualmente apresenta nota 5 para seus programas de Mestrado e Doutorado, o curso de Ecologia e Conservação de Recursos Naturais.
O Mestrado em Diversidade Biológica e Conservação da UFSCar possui duas áreas de concentração: 1) diversidade biológica e evolução* e 2) ecologia e conservação. * Esta área de concentração foi erroneamente descrita na notícia divulgada no site da UFSCar (onde está escrito Diversidade Genética e Evolução, leia-se: Diversidade Biológica e Evolução). Na área de concentração em Diversidade Biológica e Evolução estão incluídas 2 linhas de pesquisa: Diversidade Genética e Evolução e Taxonomia, Sistemática e Biogeografia. Na outra área de concentração (Ecologia e Conservação) destacam-se as linhas de pesquisa em Mecanismos e Processos Ecológicos e Conservação e Manejo.
A linha de pesquisa em Diversidade Genética e Evolução, engloba o uso de marcadores moleculares para o estudo da diversidade genética em diferentes grupos de organismos. Inclui análises de estruturação populacional e definição de unidades evolutivas significativas, além atuar na resolução de unidades taxonômicas, bem como no estudo os processos que levam à diversificação.
Aviso repassado aos interessados. Teremos seleção de candidatos em breve e o início do curso está previso para março de 2009! Que venham os candidatos!
ana claudia


quarta-feira, julho 23, 2008

Blogs científicos em português I

aproveito para incluir aqui um comentário que fiz no blog do Brontossauro, que dizer, do Carlos Hotta (Brontossauros em meu jardim) sobre o "post" Deveríamos Educar com Blogs de Ciência? Como eu cheguei atrasada na discussão, trouxe meu comentário para cá para atualizar esta conversação interessante. Como o comentário é breve, acho que não está muito adequado como "post" do mês para compor a temática "A Blogosfera Científica em Português" do Roda de Ciências. Sem promessas, mas a temática está tentadora e gostaria de compor um "Blogs científicos em português II"... vamos ver, ao sabor dos ventos...

Eis o comentário enviado ao Brontossauros... :

Faz tempo que estou sem tempo para a "second life" no mundo virtual dos blogs científicos. Finalmente, no intervalo entre o hoje e o amanhã, deixei de lado (por alguns minutos) o destino provável do travesseiro para visitar um dos meus roteiros preferidos na web: os cativantes blogs científicos em português! É uma qualidade patente dos textos de alguns autores que seguem escrevendo, sem sucumbir à rotina dos compromissos urgentes (profissionais, acadêmicos, familiares, etc.): a Maria, a Lúcia, o João, o Mauro, vc (Carlos Hotta) e alguns outros. Tudo bem não ser comparável aos EUA em matéria de "blogs" e "posts", também não o somos em termos de publicações científicas, recursos para pesquisa, IDH, e tantos outros números... isso não descredencia a qualidade informativa e interativa de alguns dos nossos poucos blogs científicos, apenas a nossa escala é outra, sem conotação de melhor ou pior, apenas diferente, reflexo das milhares de outras diferenças que carregamos, não seríamos incoerentes no mundo do www, não é? Deixo aqui minha opinião de que ensino de ciências é diferente de divulgação científica, compartilha-se interesses comuns, mas vejo que existem diferentes metodologias e objetivos em cada área. Neste sentido um blog de ciências pode tanto ser um instrumento de formação em ciências (ensino), quanto de divulgação científica, e ainda pode proporcionar a integração ensino/divulgação.

Incluir comentários aqui


Em transição... transcrição e tradução

Prezados eventuais, resistentes e persistentes leitores do via,

Passada a primeira aventura (no bom sentido) acadêmica no novo ninho (UFSCar-Sorocaba), ou seja, o primeiro semestre de 2008, dedico-me agora a preparar o roteiro de aventuras didáticas do segundo semestre visando promover a formação de estudantes de Biologia em Genética Molecular.

Sobrará tempo para o viagene, possivelmente não... mas a esperança é a última que morre... não é assim que se diz?

No semestre passado houve a experiência de utilização do ambiente Moodle para complementar atividades em sala de aula da disciplina de Genética, aprendizagem com relação à elaboração de avaliações integradas entre disciplinas diferentes de uma mesma grade horária, reflexões e troca de idéias sobre sistemas de avaliação e de como motivar os alunos e estimular sua participação em sala de aula (ou mesmo fora dela...), entre outras...

Depois de tanto alimento para o cérebro gerado na experiência e na prática didática, falta estômago para digerir tudo rapidamente e eficientemente, e é ao que me dedico agora (além de preparar aulas, recuperações, pareceres científicos e projetos, claro). Neste clima de reflexão, voltei ao blog e insisto em encontrar uma forma de incluí-lo nos assuntos urgentes e pendentes que merecem minha atenção... mas, não só o blog sofre com minha incompetência gerencial, após eleger os alunos como prioridade absoluta, por tudo que eles representam ao meu aprendizado como docente e pelo que, talvez, eu possa contribuir para o aprendizado deles com relação à genética e também, por que não, à postura profissional, humana e ética (com relação a um modelo para inspirar ou para evitar :)).

Numa estratégia desesperada para trazer o via gene à tona, pensei em expor aqui um pouco da vivência na academia e algumas reflexões sobre ela (as publicáveis, claro!).

A experiência da avaliação integrada é uma inovação pedagógica que trouxe muito aprendizado e perspectivas interessantes inclusive no campo da divulgação científica. Aguardem o próximo "post" para saber mais :)

de volta,

ana claudia

terça-feira, março 18, 2008

blogueira desnaturada

caros visitantes esporádicos do via gene,


antes de mais nada: minhas sinceras desculpas! O "blog" anda às moscas... aliás nem isso, pois tem muita ciência interessante sendo feita - e a ser feita - sobre moscas... tenho duas teses e alguns artigos científicos que comprovam o quanto essas criaturas têm a nos ensinar sobre biologia, genética, evolução e outras histórias.


mas escrevo para registrar minhas desculpas e justificar que o "blog" está sofrendo as consequências da "síndrome do mundo real" que acometeu a autora, agora que migrou da maravilhosa "ilha da fantasia" (convenhamos, nem tããão fantasia assim :)) para a "hard life" (mas nem por isso menos divertida) que é o exercício da profissão docente na destemida UFSCar no novo campus de Sorocaba. Destemida porque encara o desafio da formação acadêmica de excelência, do crescimento e da implantação do novo campus e da germinação de novos núcleos de pesquisa e proto-propstas de pós-graduação, tudo isso sob o olhar curioso da sociedade que não espera menos do que o sucesso absoluto! Muito bom isso, não?


então... provavelmente vamos continuar lee - een - tooo - ooos nas postagens aqui no Blog até que uma rotina saudável seja estabelecida, que inclua a atividade de divulgação e blogação conforme ela merece ser feita.


quem sabe até seja possível encontrar algum potencial colaborador para as matérias do via gene entre os estudantes da UFSCar-S? Está lançada a provocação!


Estou em falta com o Prof. Osame e o Prof. Adilson por não ter respondido aos seus comentários em "posts" anteriores. Caríssimos: estou atenta aos desenvolvimentos recentes e apoio e admiro as iniciativas de integração e divulgação dos blogs científicos brasileiros. Estou na área, mas "very busy"... então, finalizo como comecei: me desculpem. Hei de me reorganizar e garimpar mais tempo para essas iniciativas tão necessárias e bem-vindas da divulgação científica. Parabéns a vocês!


Abraços,


ana claudia

quarta-feira, fevereiro 27, 2008

UFSCar campus Sorocaba II



Prédio a esquerda na foto: salas de aula
Prédio ao fundo: salas de professores

UFSCar campus Sorocaba I

Semana que vem o campus novo da UFSCar (Universidade Federal de São Carlos - www.ufscar.br) em Sorocaba será "ocupado" pela comunidade acadêmica e administrativa. As aulas no campus novo re-começam a partir do dia 17/03/08.

quinta-feira, dezembro 06, 2007

e nem nos damos conta...

continuando o "copy&paste" de textos re-publicados no Jornal da Ciência (JC e-mail 3405, de 06 de Dezembro de 2007), aqui vai mais um artigo sobre o desempenho de alunos brasileiros em Ciências avaliado recentemente pelo PISA (ver "post" anterior).

No pé do ranking, aluno brasileiro acha que sabe mais ciência do que finlandeses
Antônio Gois e Angela Pinho escrevem para a “Folha de SP”:
Quando fazem as provas de ciências do Pisa (exame internacional divulgado anteontem que compara o desempenho de jovens de 57 países), os alunos brasileiros ficam nas últimas posições.
No entanto, ao serem questionados sobre o próprio conhecimento da disciplina, eles se mostram mais confiantes até mesmo do que os líderes do ranking, os finlandeses.
Ao responder a um questionário na prova, em 2006, 81% dos brasileiros que fizeram o teste disseram que "geralmente conseguem dar boas respostas a testes de ciências na escola". No Japão, sexto país com melhor desempenho na prova, 29% escolheram essa opção.Na Finlândia, 69% disseram dar boas respostas, próximo à média de 65% dos 30 países da OCDE (Organização para a Cooperação e o Desenvolvimento Econômico), entidade que organiza o Pisa.
Os itens em que os brasileiros foram mais reticentes foram "eu consigo entender facilmente novas idéias em ciência na escola" e "temas de ciência na escola são fáceis para mim": 62% concordaram.
Para Marta Barroso, professora do Instituto de Física da UFRJ que já estudou o desempenho dos brasileiros em ciências no Pisa, é natural que alunos que saibam mais sejam mais críticos ao avaliar seu desempenho: "Lembre-se que "quanto mais eu sei, mais sei que nada sei". Certamente um aluno japonês tem mais idéia do que seja aprender e entender ciências que um brasileiro.Ela diz, no entanto, que também podem ter contribuído o fato de o questionário aplicado aos alunos ser muito longo -com perguntas pouco usuais para o estudante- e a possível percepção do estudante de que responder àquelas questões não era importante ou que poderia ser usado para puni-lo.
(Folha de SP, 6/12)

a ciência foi pro espaço... no mau-sentido

Só repassando a notícia que foi publicada ontem no site do Jornal da Ciência (JC e-mail 3404, de 05 de Dezembro de 2007), já um recorte do jornal Estadão:


"Pisa: Em ciência, 61% estão no pior nível

27,9% dos alunos não chegam nem ao grau mais baixo de compreensão
Resultado do Pisa (Programa de Avaliação Internacional de Estudantes*) divulgado ontem mostra que 61% dos alunos brasileiros estão abaixo ou no pior dos 6 níveis de desempenho em ciência determinados pela Organização para Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE).
Ao dividir por área de conhecimento, a avaliação evidencia que os brasileiros tiveram melhor desempenho em biologia, deixando outras áreas, como astronomia, ainda com piores resultados.Em uma escala de 800 pontos, 390 foi a nota do Brasil em ciência no Pisa, o que rendeu ao país o nada honroso 52º lugar entre as 57 nações que participaram da avaliação.O Brasil ter ficado no pior nível de desempenho representa que 33,1% dos estudantes que fizeram a prova têm conhecimento científico muito limitado e só conseguem elaborar explicações científicas óbvias ou seguidas de informações já evidenciadas.Entretanto, o Pisa traz outro dado crítico: 27,9% dos alunos nem sequer atingiram tal escala, pois tiveram desempenho abaixo do nível 1.
Segundo Maurício Bacci, coordenador do curso de Ciências Biológicas da Unesp/Câmpus Rio Claro, os resultados do Pisa ilustram a realidade do ensino de ciência no Brasil. “Os alunos chegam às universidades sem formação prática. Com isso, os professores universitários acabam tendo de recuperar conteúdos de ciência que deveriam ser adquiridos na educação básica.” Entre os principais problemas apontados por Bacci, estão a falta de salários atraentes aos licenciados em Biologia, Física e Química e as condições de trabalho oferecidas nas escolas públicas. “É preciso estruturar as escolas públicas com laboratórios e, principalmente, investir em material humano.”
Áreas do conhecimento
O Brasil obteve melhor classificação na área dos sistemas vivos (a biologia), com pontuação 403. Em sistemas físicos (ciências químicas e físicas), a nota foi 385. Já em sistema espacial e planeta Terra (cosmologia, geologia e astronomia), fez 375 pontos, melhor apenas que Colômbia, Catar e Quirguistão.
De acordo com Luiz Carlos Menezes, professor do Instituto de Física da USP, a diferença de desempenho entre as áreas é pequena, mas pode ser reflexo da ênfase dada às ciências da vida nos últimos anos do ensino fundamental.“Hoje, ciência é sinônimo de ciências da vida no ensino fundamental. Os professores que atuam nessa etapa de ensino são licenciados em Ciências e não em Física e Química, com isso há uma tendência a valorizar essa área.” Embora os Parâmetros Curriculares Nacionais sinalizem para a necessidade de ter astronomia, cosmologia e geologia no ensino fundamental, Menezes diz que essas áreas foram praticamente varridas do currículo. “É preciso dar ênfase a essas áreas na formação de professores e nos livros didáticos.” O especialista em física explica que faltam professores formados para dar aulas que motivem os alunos a aprender. “Uma coisa é o aluno ser capaz de olhar para o céu e entender as razões que fazem o Sol nascer no leste. Outra é o professor fazê-los decorar os nomes dos planetas, sem relação alguma com a vida prática.”
O Pisa mostra que, em relação às competências adquiridas em ciência, os brasileiros ainda deixam a desejar. Apenas 33% aplicam o conhecimento científico para resolver um problema. Outro dado alarmante: 35% não tiram conclusões por meio de evidências científicas nem refletem sobre as implicações sociais da ciência e desenvolvimento tecnológico.
Marcelo Knobel, professor do Instituto de Física da Unicamp, acredita que o melhor caminho para reverter esse quadro é o investimento no professor. “Um licenciado em ciências, quando ensina a audição do corpo humano tem de apresentar aos alunos conceitos de som. As áreas do conhecimento biológico e físico têm de estar integradas e, para isso, é preciso bons programas de formação.”
Na escola
Vivian Froes, de 17 anos, no 3º ano do ensino médio da Escola Estadual Jair Toledo Xavier, na Brasilândia, zona norte da capital achou a prova fácil. “Caiu bastante aquecimento global.”Mas Vivian, que quer ser professora de História em escola pública, afirma que o péssimo desempenho do Brasil no Pisa mostra que algo está errado. “Minha escola é boa, temos de fazer até Trabalho de Conclusão de Curso (TCC). Nem todas são assim e tenho medo do que encontrarei quando me formar professora. Os baixos salários e a violência desanimam.”
(Maria Rehder)(O Estado de SP, 5/12)
*O Pisa, exame considerado o mais importante do mundo em educação, é realizado pela Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE) a cada três anos. Cerca de 400 mil alunos de 15 anos, de 57 países, fizeram a última prova.

segunda-feira, novembro 19, 2007

meu querido diário... genético?

Diretamente do Jornal da Ciência de hoje copia esta reportagem:
Amy Harmon escreve para "The New York Times":
A exploração do genoma humano é algo que durante muito tempo está restrito aos cientistas nos laboratórios de pesquisa. Mas isto está prestes a mudar. Uma nova indústria está capitalizando a queda dos custos da tecnologia de exames genéticos para oferecer às pessoas um acesso sem precedentes - e sem intermediários - ao seu próprio DNA.Por apenas US$ 1.000 e uma amostra de saliva, qualquer pessoa poderá se inscrever para descobrir o que a ciência sabe a respeito da maneira como os bilhões de bits do seu código biológico moldaram-na como um indivíduo. Três companhias já anunciaram planos para comercializar tais serviços.Quando me ofereceram a oportunidade de ser uma das primeiras pessoas a usar um desses serviços, eu concordei, mas com algumas reservas. E se eu descobrisse ser provável que morresse jovem? Ou que eu pudesse ter passado um gene indesejável para a minha filha? E, para falar em algo mais pragmático, e se no futuro uma companhia de seguros ou um empregador usasse tal informação contra mim?Mas, três semanas depois, eu já estava meio viciada na comunhão diária com os meus genes (uma questão recorrente: tal vício seria genético?).Por exemplo, as minhas mãos doeram no dia seguinte. Assim, naturalmente, eu chequei o meu DNA.Seria esse o primeiro sinal de que eu herdara a artrite que retorceu os dedos trabalhadores da minha avó paterna? Acessando a minha conta na 23andMe, a companhia pioneira que agora tem a custódia do meu código biológico, digitei a minha pergunta no Genome Explorer e cliquei em "return" ("retonar"). Basicamente, o que eu estava fazendo era uma "googlada" no meu próprio DNA.Passei horas todos os dias fazendo apenas isso, à medida que eram anunciados quase que diariamente novos estudos vinculando trechos de DNA a doenças e a características como aparência, temperamento e comportamento. Às vezes, o fato de surfar no meu genoma causou aquele mesmo choque de reconhecimento que ocorre quando alguém vê a si próprio inesperadamente no espelho.Quando cresci, eu me recusei a beber leite. Agora, fiquei sabendo que o meu DNA carece da mutação que facilita a digestão de leite pelos adultos, algo que tornou-se comum entre os europeus após a domesticação das vacas.Mas a experiência fez também com que eu questionasse as suposições sobre mim mesmo. Aparentemente eu não tenho predisposição para boa memória verbal, embora sempre tenha me orgulhado da minha capacidade de lembrar de ditados e citações. Será que eu deveria gravar mais as minhas entrevistas? Decidi que não; sou boa com citações. Venho praticando há anos. Lembrei a mim mesmo que o DNA não é a palavra definitiva.Não gosto de couve-de-bruxelas. Quem sabia que isso era genético? Mas eu tenho o fragmento de DNA que me confere a capacidade de sentir o gosto de uma substância que faz com que as verduras e legumes apresentem sabor amargo. Sou diferente das pessoas que não sentem o sabor amargo - pessoas que, na verdade, gostam de couve-de-bruxelas - devido a uma única diferença no nosso alfabeto genético de quatro letras: em algum lugar no cromossomo humano sete, eu tenho um G onde elas têm um C.Esta é apenas uma das cerca de dez milhões de diferenças, conhecidas como polimorfismo de nucleotídeo único (SNP, na sigla em inglês), espalhadas pelos 23 pares de cromossomos humanos nos quais a 23andMe inspirou-se para adotar este nome. A companhia criou uma lista dos meus "genótipos" - ACs, CCs, CTs e assim por diante, com base nas versões de SNP que possuo na minha coleção de pares de cromossomos.Por exemplo, tragicamente eu não conto com a predisposição para comer alimentos gordurosos sem ganhar peso. Mas pessoas que, como eu, são GG no SNP conhecido pelos geneticistas como rs3751812 são 2,9 quilos mais leves, em média, do que as AAs. Obrigado, rs3751812!E caso uma descoberta recente seja verdadeira, o meu GG no rs6602024 significa que sou além disso 4,5 quilos mais magra do que aqueles cujo código genético apresenta uma soletração diferente. Boas novas, exceto pelo fato de eu agora só poder culpar a minha preguiça pelo fato de não caber mais nas calças que usava antes da gravidez.E, embora haja grande controvérsia quanto ao papel que os genes desempenham na determinação da inteligência, foi difícil resistir a dar uma espiada nos SNPs que vêm sendo vinculados - mas de forma tênue – ao QI. Três me são favoráveis, três contrários. Mas encontrei esperança em um estudo divulgado na semana passada que descreve um SNP intensamente vinculado a um aumento do QI de bebês que são amamentados.Bebês com a forma CC ou CG de SNP aparentemente beneficiam-se de um ácido graxo encontrado apenas no leite materno, mas, os que têm a forma GG, não gozam desse benefício. O meu genótipo CC significa que eu me tornei candidata a um aumento de seis pontos no QI quando a minha mãe me amamentou. E, como, segundo as leis da genética, a minha filha necessariamente herdou um dos meus Cs, ela também se beneficiará do fato de eu tê-la amamentado. E, por falar nisso, onde foi mesmo que coloquei aquelas fichas de inscrição para a pré-escola?Eu nem sempre me senti confortável com relação ao meu genoma. Antes de cuspir no recipiente, liguei para várias grandes companhias de seguro para verificar se estaria prejudicando as minhas chances de conseguir cobertura. Elas disseram que não, mas isso é agora, quando quase ninguém conta com tais informações sobre a própria estrutura genética. Dentro de cinco anos, caso companhias como a 23andMe tenham sucesso, muito mais gente terá acesso a tais informações. E o que as companhias de seguro desejam saber não é exatamente o risco relativo do indivíduo contrair doenças?No mês passado, sozinha em uma sala da sede da 23andMe em Mountain View, na Califórnia, tendo pela primeira vez a minha senha, eu falei umas coisas meio sem sentido (propensão genética?) e caminhei pelo corredor para saber das novidades. Assim que visse os meus resultados, jamais poderia voltar atrás. Eu havia me preparado para o pior que pudesse descobrir naquele dia. Mas e se algo ainda pior surgisse amanhã?Alguns fornecedores de serviços de saúde argumentam que a população não está preparada para tais informações e que seria irresponsável fornecer tais dados sem a presença de um especialista que ajudasse a inserir esse conhecimento no seu devido contexto. E, em determinados momentos, enquanto reunia a coragem para avaliar os riscos que tenho de sofrer de câncer de mama ou Alzheimer, pude ver que tal argumentação faz sentido.A Navigenics, uma das companhias que deseja comercializar informações pessoais referentes ao DNA, tem a intenção de fornecer uma consulta telefônica com um conselheiro genético no momento de entregar os resultados. O serviço prestado pela companhia custa US$ 2.500 e ela a princípio fornecerá dados sobre 20 doenças.A DeCode Genetics e a 23andMe vão oferecer orientações. Todas as três companhias estão apostando que as pessoas desejarão informações instantâneas sobre novas descobertas. Eu sei que jamais conseguiria deixar escapar a oportunidade de preencher uma lacuna no meu quebra-cabeça genético.Decidi não submeter o DNA da minha filha ao exame - pelo menos não agora - porque não quero encarar nada a seu respeito como sendo predestinado.Se ela desejar tocar piano, quem se importa se não tiver uma afinação perfeita? Se quiser participar de uma corrida de cem metros rasos, para que saber se ela carece do gene característico dos velocistas? E será que eu realmente desejo saber - será que ela realmente gostaria de saber algum dia - que genes herdou de determinado genitor, avô ou avó?Mas não estou livre. O que quer que esteja espreitando nos meus genes, esteve lá durante toda a minha vida. Não olhar para isso seria como rejeitar alguma parte fundamental de mim mesmo. Compelida a saber (tendência genética?), naveguei rapidamente pelas telas de advertência do site. Li que não haveria nenhuma informação definitiva, e que novas descobertas poderia reverter as informações que eu recebesse neste momento. Ainda que o site me informasse que o meu risco de desenvolver uma doença fosse alto, poderia acontecer de não haver nada a ser feito quanto a isso, e, além do mais, eu não deveria encarar a informação como um diagnóstico médico. "Se, após levar esses fatores em consideração, você ainda desejar ver os seus resultados, clique aqui", informou a tela.Eu cliquei.Assim como outros usuários dos serviços da 23andMe, o meu primeiro impulso foi olhar as partes do código genético associadas às doenças que mais temo.Mas, ao me deparar com o gráfico de barras que mostra os genes bons em verde e os ruins em vermelho, tive uma sensação perversa de realização. O meu risco de desenvolver câncer do seio não é maior do que o da média, da mesma forma como o meu risco de padecer de Alzheimer. Vi que tenho uma tendência 23% menor do que a maioria das pessoas de sofrer de diabetes Tipo 2. E o risco de ficar paralisada devido a esclerose múltipla é quase nulo. Apresento um risco três vezes mais do que o indivíduo médio de sofrer da doença de Crohn, mas, ainda assim, a chance de que isso ocorra é inferior a 1%.Em suma, deparei-me com uma notável saúde genética, e eu sequer tinha freqüentado a academia nos últimos meses!Mesmo assim, o simples fato de estudar o meu DNA me deixou mais consciente dos riscos básicos de saúde que todos nós corremos. Abandonei o meu hábito de comer meus chocolates M&M no meio da tarde. E, a seguir, abri o meu Jornal Genético na parte relativa a doenças cardíacas para descobrir que tenho uma propensão 23% superior à média de sofrer um ataque cardíaco."Escolhas de estilos saudáveis de vida desempenham um grande papel em prevenir as obstruções que levam a ataques cardíacos", foi o que o site me informou.Obrigado, Jornal Gene. Mas de alguma forma até esse conselho banal soou mais forte quando a advertência veio do meu próprio DNA.De volta a Nova York, segui para a academia de ginástica, apesar de uma reportagem urgente que tinha que escrever, e das ainda não preenchidas fichas de inscrição pré-escolares da minha filha. Agora pelo menos sei que tenho mais tempo. Descobri um SNP que provavelmente indica uma grande longevidade.Mas, naquilo que passei a aceitar como sendo a lei genômica das médias, logo descobri que poderia muito bem passar esses anos extra de vida cega. Segundo os SNPs para degeneração macular que pesquisei na área do Genome Explorer do site da 23andMe, eu corro um risco quase cem vezes maior de desenvolver esta doença do que alguém que apresenta a mais favorável combinação A-C-G-T.E, ao contrário do conselho padrão do tipo alimentação-saudável-e-exercícios referente à saúde cardíaca, neste caso não há muito que eu possa fazer. Mesmo assim, achei o conhecimento a respeito do meu futuro potencial estranhamente confortador, ainda quando ele não se encaixava com aquilo que eu desejara. Pelo menos o meu risco de ter os dedos retorcidos quando for idosa não é grande como eu temia. Eu não tenho o SNP para artrite.Talvez eu simplesmente esteja digitando demais o teclado do computador.
(Tradução:Uol)(The New York Times, Uol.com/Mídia Global, 17/11)
artigo original aqui

quinta-feira, novembro 08, 2007

23 pares e mais um pouco...

Divulgação: hoje recebi um email informando sobre o nascimento de um blog sobre genes, genomas e a natureza humana. Batizado de 23 pares, apresenta-se o blog da Márcia Triunfol, bióloga, divulgadora de ciências e "n" outras habilidades, experiências e interesses, conforme ela comenta no "post" de inauguração "Coffee-Lattes, com muita espuma". O via gene deseja muito sucesso a mais esta iniciativa em prol da divulgação científica.
ana cláudia

quarta-feira, outubro 31, 2007

Prêmio Nobel-Abacaxi


James Watson e suas declarações desastrosas (retirado da Wikipédia):


"Watson declarou, em artigo publicado no Sunday Times Magazine em 14 de outubro de 2007, que está "inerentemente pessimista quanto às perspectivas da África" porque "todas as nossas políticas sociais estão baseadas no facto de que a inteligência deles é a mesma que a nossa – enquanto que todos os testes dizem que não é assim". Ele afirma desejar que todos fossem iguais, mas argumentou que "pessoas que têm de lidar com empregados negros descobrem que isso não é verdadeiro". Ele afirmou que não se deveria discriminar com base na cor da pele, porque "existem muitas pessoas de cor que são bastante talentosas, mas que não são encorajadas quando não obtêm sucesso no nível mais elementar.


"Não há nenhuma razão sólida para antecipar que as capacidades "intelectuais de pessoas geograficamente separadas em sua evolução provem ter evoluído de forma idêntica", escreveu. "Nosso desejo de reservar poderes iguais de raciocínio como alguma herança universal da humanidade não será suficiente para fazer com que assim seja.""


James Watson e suas desculpas (retirado da Wikipédia):


"Watson (...) desculpou-se por seus comentários, declarando: "para todos aqueles que extraíram uma inferência de minhas palavras de que a África, como continente, é de algum modo geneticamente inferior, posso somente me desculpar sem restrições. Não foi o que eu quis dizer. O mais importante, do meu ponto de vista, é que não há base científica para tal crença", e depois, "não posso entender como posso ter dito o que foi citado como eu tendo dito. Posso certamente entender por que as pessoas que leram estas palavras reagiram da forma que reagiram."


Em 25/10/2007, o filósofo Helio Schwartsman publicou um texto sobre uma recente declaração de James Watson (prêmio Nobel (pela estrutura do DNA) e prêmio Abacaxi (pelo preconceito)) em sua coluna no "site" da Folha OnLine. Pensei em escrever a respeito da declaração de Watson e da reação imediata que esta desencadeou, mas reconheci no texto do filósofo minhas impressões e opinião. Por falta de tempo e pela identificação com esta matéria, reproduzo aqui o que li na coluna do Hélio:


O DNA do racismo


"James Watson, o co-descobridor da molécula de DNA e ganhador do Nobel de 1953, pisou na bola. Em Londres para a divulgação de seu novo livro "Avoid Boring People" (evite pessoas chatas ou evite chatear as pessoas), ele deu declarações escandalosamente racistas. Acho que nem o Borat ou qualquer outro comediante querendo troçar do politicamente correto teria ido tão longe.


Em entrevista ao jornal britânico "The Sunday Times", o laureado disse na semana passada que africanos são menos inteligentes do que ocidentais e que, por isso, era pessimista em relação ao futuro da África. "Todas as nossas políticas sociais são baseadas no fato de que a inteligência deles [dos negros] é igual à nossa, apesar de todos os testes dizerem que não", afirmou.


Até aqui, com muito boa vontade para com Watson, poderíamos argumentar que o venerando pesquisador procura apenas exercer sua liberdade acadêmica, afinal, se há mesmo evidências a mostrar que negros são menos inteligentes, ele poderia ter um ponto. Mas já na frase seguinte ele mostrou que seu raciocínio não era exatamente científico: "Pessoas que já lidaram com empregados negros não acreditam que isso [a igualdade de inteligência] seja verdade".


Watson cometeu aqui pelo menos dois grandes pecados epistemológicos --deixemos por ora a questão moral de lado. Falou em "todos os testes" sem dizer quais e fez uma generalização apressada. Eu já lidei com patrões e empregados brancos, negros, amarelos e pardos, com pessoas burras e inteligentes, e posso asseverar que todas as combinações são possíveis.


Como era previsível, a reação às declarações de Watson foram efusivas. Ele foi desconvidado para vários eventos e houve até quem procurasse nos estatutos da Fundação Nobel uma brecha legal para cassar-lhe o prêmio. O experiente cientista, agora com 79 anos, acabou escrevendo um artigo em que pediu desculpas a quem tenha ofendido.


Não há dúvida de que Watson, reincidente em matéria de opiniões preconceituosas, merecia censuras. Receio, porém, que alguns de seus críticos tenham recaído nos mesmos erros que ele, isto é, afirmar coisas que não podem provar e proceder a generalizações problemáticas.


Os testes a que o laureado se referiu são provavelmente as tabelas de Richard Herrnstein e Charles Murray publicadas em "The Bell Curve" (a curva do sino ou a curva normal), de 1994, um dos livros mais explosivos da década passada. A obra pretendia sustentar que a inteligência medida por testes de QI é um fator preditivo de indicadores sociais como salário, gravidez precoce e problemas com a Justiça melhor do que o nível socioeconômico da família. O texto também afirma que negros dos EUA têm em média um QI mais baixo do que o de outros grupos sociais como brancos, judeus, asiáticos.


Sobretudo na imprensa, circulou a versão de que os autores diziam que a inteligência é dada pelos genes, mas Herrnstein e Murray não foram tão longe em seu determinismo. Eles afirmaram que permanece em aberto o debate sobre se e quanto genes e ambiente influem nas diferenças de QI entre os grupos étnicos --o que representa mais ou menos o consenso científico sobre a matéria.


"The Bell Curve" foi competentemente criticado por grande parte do establishment acadêmico norte-americano. De um lado, vieram as objeções conceituais, encabeçadas por cientistas como Stephen Jay Gould, que contestaram a idéia de que a inteligência possa ser reduzida a um teste de QI. Fazê-lo implicaria aceitar uma série de pressupostos de engolir, como o de que uma noção tão complexa possa ser traduzida num único número e que ela permaneça invariável ao longo de toda a vida do indivíduo. Aqui, estudar não serviria para nada além de acumular informações, coisa que computadores fazem melhor do que seres humanos.


Um pouco mais tarde, uma segunda leva de trabalhos, iniciada por Michael Hout e colegas da Universidade de Berkley, mostrou que os próprios dados de Herrnstein e Murray apresentavam problemas metodológicos, que exageravam a importância dos testes de QI como fator preditivo e diminuíam a do background familiar.


O debate é apaixonante, mas eu receio que, da forma como foi travado, ele esconda o ponto central, que é o de mostrar por que o racismo é errado. E essa é muito mais uma questão moral do que científica.


A evidência empírica não favorece o argumento da igualdade entre os homens, pela simples razão de que eles não são iguais. E opor-se ao racismo não pode depender de uma ficção filosófica que começou a ser escrita por John Locke no século 17, ao criar o conceito de "tábula rasa", segundo o qual os homens nascem como uma folha em branco, e que todo o conhecimento que adquirem, bem como as diferenças que acabam por desenvolver, é fruto das condições externas a que são submetidos. Um rápido passeio pelos rudimentos da neurologia mostra que já nascemos, senão prontos, pelo menos com uma série de estruturas mentais pré-definidas. E elas têm muito em comum, mas em certos pontos variam significativamente de pessoa para pessoa. Embora Locke seja um dos pais espirituais do liberalismo, a "tábula rasa" fez carreira entre pensadores de esquerda do século 20. Por alguma razão obscura, em vez de defender que todos devem ter os mesmos direitos (o que já estaria de bom tamanho), resolveram que a igualdade deveria ser um dado da natureza, mesmo que isso contrariasse o senso comum e as observações diretas.


É engraçado como estamos dispostos a aceitar diferenças entre pessoas (fulano é mais inteligente do que ciclano), mas não entre grupos étnicos. Em relação a alguns assuntos, comportamo-nos como se filhos não se parecessem com seus pais, como se não houvesse algo chamado hereditariedade, que em algum grau é dada pelos genes, e contribui para a expressão das mais variadas características de uma pessoa.


Não fazemos objeção a um juízo do tipo: negros são em média mais altos do que japoneses, mas basta alguém sugerir que os asiáticos tenham uma inteligência média (definida por testes de QI) superior à do grupo de ascendência africana para desencadear uma revolução. O mesmo vale para as aptidões femininas para a matemática ou a predisposição masculina para a infidelidade conjugal.


Médias são um conceito traiçoeiro. Representam um valor obtido a partir resultados válidos para vários indivíduos, mas que não podem ser extrapolados a nenhum indivíduo em particular. Na média, a humanidade tem um testículos e um seio. Nossa experiência ensina que é perfeitamente possível encontrar um indivíduo negro mais inteligente (por teste de QI ou qualquer outro critério) do que um branco anglo-saxônico, judeu, coreano ou o que for. Se de fato há uma predisposição de origem genética para a inteligência, como parece que há, ela não chega, exceto em casos patológicos, constituir uma barreira intransponível ao sucesso intelectual de ninguém. A vantagem de uma pessoa mais favorecida pelos genes pode ser facilmente revertida por outras características como a disciplina no estudo, para citar um único exemplo.
O argumento contra o racismo, o sexismo e outras chagas que desde sempre atormentam a humanidade deve ser moral. De outra forma, se um dia inventarem um teste confiável para medir a inteligência e ele mostrar discrepâncias entre grupos, o que acontece? O racismo estará legitimado?


Por maiores que sejam as diferenças entre indivíduos e grupos de indivíduos, quer elas tenham origem nos genes ou no ambiente (ou numa interação entre eles, como parece mais provável), o fato é que é em princípio errado prejulgar alguém por características (reais ou supostas) que não observamos nessa pessoa, mas no grupo ao qual consideramos que ela pertence.


Podemos ir um pouco mais longe e afirmar que o homem tem uma estrutura psíquica que favorece atitudes etnocêntricas e mesmo racistas. Pensamos, afinal, através de operações mentais de categorização e generalização. Se um membro da tribo vizinha uma vez me atacou, é evolucionariamente útil que eu parta do pressuposto de que todos aqueles que pertencem àquela tribo inimiga tentarão me agredir e antecipe o ataque. Só que esse tipo de raciocínio, que fazia sentido no passado darwiniano, perdeu inteiramente a razão de ser em sociedades modernas. Se ele já foi útil para manter-nos vivos, hoje, a exemplo da capacidade de armazenar energia na forma de tecido adiposo, é apenas um estorvo. Serve para separar e fomentar violência. As forças da civilização exigem que abandonemos essa forma primitiva de pensar e utilizemos a razão e não reações instintivas no trato com outros seres humanos. É isso que Watson, mesmo com toda sua genialidade científica, não foi capaz de fazer. "


Hélio Schwartsman, 42, é editorialista da Folha. Bacharel em filosofia. Escreve para a Folha Online às quintas.