domingo, fevereiro 26, 2012

diário de uma coleta

The day after... antes do trabalho propriamente "de bancada" em um laboratório de genética molecular, existe um outro que nem sempre parece óbvio aos olhos de quem pensa nas práticas de estudo do DNA: a coleta de campo, onde são obtidas as amostras para estes estudos de DNA.

O cenário de pesquisa aqui é a análise da variabilidade genética de moscas, considerando tanto as diferenças genéticas entre os indivíduos de uma mesma espécie (variabilidade genética intraespecífica) quanto a diferença genética entre as espécies (variabilidade genética interespecífica).

Mas... de onde vem estes indivídos cheios de informações genéticas que serão comparados para que as diferenças entre eles sejam evidenciadas e interpretações sobre diversidade biológica sejam formuladas?

A busca por estas evidências fomenta projetos de pesquisa e a formação de jovens pesquisadores de iniciação científica e pós-graduação, além de alimentar o moto-continuo da construção de conhecimento científico. E a resposta sobre a origem das amostras, neste exemplo de pesquisa, é a natureza. As moscas doadoras de DNA são oriundas de ambientes naturais bem preservados como Mata Atlântica, Cerrado, etc. 

E lá vão os pesquisadores (sim, geneticistas também podem) aventurar-se nas matas e campos para encontrar (e capturar) o DNA, quer dizer, as moscas!

Registro no via gene alguns “flashes” de visitas com intuito exploratório para conhecermos um pouco mais sobre a diversidade de algumas moscas do Parque do Zizo (uma RPPN em São Miguel Arcanjo/Tapiraí - SP) e em uma área preservada do Instituto Arruda Botelho (Itirapina - SP). Este comentário/post em particular é dedicado ao Parque do Zizo.
 
Querido diário:
Coleta com puça

No dia 1° de fevereiro realizamos uma viagem para o Parque do Zizo (próximo a São Miguel Arcanjo, SP) e, ainda na estrada, nos deparamos com a carcaça de um cachorro do mato atropelado (o estado geral de decomposição indicava que fazia tempo). Junto à carcaça encontramos muitas moscas de hábitos saprófagos, como espécies da família Calliphoridae, adultos e larvas, além de besouros decompositores e outros insetos.

Apesar de ser uma nota triste (o atropelamento), conseguimos nossas primeiras amostras aqui, tomando o devido cuidado para não sermos vítimas na estrada durante esta atividade.

E seguida um pouco da vista mais adiante quando a estrada se transforma em uma trilha conforme se aproxima do parque:
Acesso ao Parque do Zizo
Manacá-da-serra

A estrada vai se modificando até transformar-se em uma paisagem cada vez mais cercada pela vegetação, úmida e esteticamente reconfortante, convidando os pesquisadores a conhecê-la e explorá-la.

Paulo (IC) e Gilson (piloto oficial UFSCar)
A viagem teve apoio incondicional do Paulo (esquerda) na coleta propriamente dita e na caracterização do ambiente e do Gilson que nos conduziu até nosso destino e de volta à UFSCar, demonstrando habilidade para apontar pegadas de animais silvestres e discorrer sobre búfalos, pesqueiros e gastronomia durante todo o percurso. Ao fundo começa-se a visualizar o portão de entrada do parque. Agradeço a estes colaboradores, movidos a sanduiches e guaraná, pelo apoio.
 
O córrego que nos recepciona

Há várias trilhas no parque mas, nesta visita técnica para caracterização da área, nós fomos mais conservadores e exploramos apenas duas rotas: uma ao longo deste córrego (Rio Ouro Fino) e outra morro acima, revelando dois ambientes bem distintos. Mais informações sobre as trilhas aqui.
Pesquisador e seu material de coleta
Estamos nas instalações do parque, que possui estrutura de pousada, muito utilizada por observadores de aves e outros curiosos da natureza selvagem. Para a coleta, estamos munidos com puçás, gaiolas, iscas e frascos de "n" utilidades, além de perneiras e chapéus para garantir nossa segurança e podermos nos concentrar mais nas moscas do que nas cobras que eventualmente poderiam querer participar do roteiro (felizmente, não vimos nenhuma cobra).
Lindas bromélias

Lindas bromélias sobre tronco caído
A cada trecho percorrido uma infinidade de bromélias saudava os visitantes e se distribuia em arranjos decorativos preparados ao acaso como se espera encontrar em uma mata natural bem preservada. Neste caminho nos deparamos com outras entidades plenamente integradas ao seu habitat natural:



Qual espécie de anfíbio será esta?
Encontramos este indivíduo sob a água (esquerda), deixou-se fotografar, imóvel, parecia fazer parte do fundo do córrego.
.
camuflado: siga o dedo indicador...

Foi quase sem-querer que encontrei este outro pequeno anfíbio que se confunde com os gravetos e folhas secas do chão da trilha. Além da coloração muito semelhante ao substrato, o corpo tem estruturas que lembram mesmo um gravetinho.

o que vc achou do meu disfarce?
Espécie: Ischnocnema guentheri

Agradeço ao Prof Fernando Rodrigues, da UFSCar - Sorocaba e seus contatos pela disposição em investigar a identidade taxonômica dos anfíbios que encontramos durante nossa coleta (ainda vamos chegar nas moscas!).

Espécie: Physalaemus olfersii

Encontramos ainda mais uma espécie de sapinho no chão úmido da trilha do rio Ouro Fino. Também esta espécie utiliza-se da estratégia de camuflagem para confundir os observadores, ou predadores de plantão. Transformam-se em "folhapos" ou "sapolhas", de tão integrados aos folhiços. Estão vendo a criatura na parte superior da imagem?



Trilha e Rio Ouro Fino: coleta na margem

Na trilha do Ouro Fino selecionamos este ponto para as coletas, disponibilizando iscas (peixe em decomposição) para atrair espécies de moscas saprófagas e tentarmos capturá-las com redes entomológicas (o famoso puçá), classicamente associado à coleta de borboletas, mas que é um recursos precioso na captura de dípteros.


 
Finalmente: A MOSCA!


E nossa personagem principal, a MOSCA. Muitos indivíduos permanecem pousados sobre a vegetação nas vizinhanças da isca, aguardando uma oportunidade para compartilhar da novidade, muitas vezes machos com segundas intenções observando as fêmeas que se aproximam para se alimentar ou ovipor na isca.


 
a mosca na isca de peixe

Na mosca! A isca atraiu especies de moscas das famílias Calliphoridae (foto) e Sarcophagidae principalmente, além de espécies parecidas com moscas das frutas e outros organismos que não resistiram ao "banquete", como vespas, formigas e besouros. Como uma visita de reconhecimento fomos bem sucedidos. Iremos testar outras estratégias e metodologias para amostrar as moscas do Parque do Zizo, incluíndo diferentes armadilhas e maior diversidade de iscas.


que pernas enooooormes!




Aproveitamos para registrar mais algumas espécies curiosas que foram "acidentalmente" coletadas pelo puça junto com as moscas coletadas sobre as folhas. Seria um opilião essa bolinha com 8 pernas? Havia uma infinidade destes organismos num certo ponto da trilha

 
Neste trecho estávamos em outra trilha, que subia um moooooooorro em zigue-zague e conforme subíamos, o ambiente ia ficando menos úmido e nada de sapinhos se avistava pelo caminho. Mas encontramos esse monte de ... e ficamos imaginando quem teria "depositado" isso ali. Há uma trilha conhecida por ser frequentada por antas, seria esta uma evidência?


Parente do carruncho?

 As bromélias são famosas por abrigar uma diversidade de hóspedes atraídos pela fonte de água e outros nutrientes. Encontrei esse besouro lindo passeando pelo interior de uma bromélia e registro aqui mais um habitante do Parque do Zizo. Alguém sabe que espécie é esta?




frutos em abundância




Para não dizer que não falei das flores... não são exatamente flores, mas registro aqui também algumas espécies vegetais para aqueles que possam ter sentido falta de um "pé de árvore" neste longo comentário.




Teiú - o guardião do parque


Retornamos da coleta e nos deparamos com este simpático teiú tomando conta da entrada da pousada. Logo que viu que nossas intenções eram das mais nobres, realizar pesquisas científicas, nos deu as costas e seguiu seu caminho tranquilo. 






até a próxima...

Re-encontramos o Gilson e fomos presenteados com uma carona de trator até o carro, que estava nos aguardando ao final de uma estrada de terra íngrime que nos deu um suadouro mais cedo quando chegamos ao parque. Ao longo do caminho registramos ainda algumas pegadas de jaguatirica (se não me engano...) e de um marsupial. 

Vejam as fotos:




duas pegadas e uma formiga...

As duas pegadas estão lado a lado: à esquerda (dedos longos) seria referente a uma espécie de marsupial e a da direita (dedos curtos) seriam as "almofadinhas" de um felino, possivelmente uma jaguatitica. O que a formiga está fazendo aí é uma incógnita, assim como o que se passou entre o felino e o marsupial - se é que houve alguma coisa...


Sr. Francisco Balboni - Chico



Nossos sinceros agradecimentos ao Sr. Francisco Balboni, administrador do Parque do Zizo que permitiu nossa visita ao parque. Como retribuição, o via gene traz esta "matéria" especial.




Araucárias

Nos despedimos do parque com esta imagem das araucárias e com a perspectiva de conhecermos mais sobre a diversidade genética destas moscas. Em breve serão "postados" o relato e registros fotográficos da viagem de coleta que realizamos na última sexta-feira (24/02/2012) em uma área de cerrado do Instituto Arruda Botelho, em Itirapina, próximo à Represa do Broa.


biologia é 10! ana claudia

quinta-feira, fevereiro 23, 2012

é fácil preencher o currículo Lattes?


Retornando em 2012, após o carnaval... ao via gene!

Depois de um longo intervalo em silêncio e após ter conseguido desarrumar de forma irreversível (até onde meus "poderes" alcançam) o layout do via G, retomo o contato. Faltam ainda todos os meus saudosos "links" e outros dispositivos que figuravam absolutos neste pequeno sistema, mas entre mortos e feridos salvaram-se - quase - todos. Em algum momento, quando eu tiver paciência (nunca - diriam alguns), resgatarei os "links" perdidos...

A motivação deste comentário veio por intermédio de uma consulta feita por um aluno sobre como preencher alguns dados menos "óbvios" (talvez menos formalizados na estrutura acadêmica) nos formulários do currículo Lattes do CNPq. Exceto por um "link" para "perguntas frequentes", não encontrei um manual on-line... então comecei a resgatar minhas experiências com esse sistema revolucionário que é a plataforma Lattes (e cheguei à conclusão que não sou a pessoa mais indicada para responder mas, como me interessei pelo tema, arrisquei mesmo assim).

Preciso confessar que eu sou do tempo pré-Lattes, quando sofríamos para decidir sobre um modelo de currículo de pesquisador (fosse IC, pós-graduando ou doutor) que não omitisse nenhuma informação relevante ,nem incorporasse dados sem valor científico (como experiência de co-editora do jornalzinho da escola ou prêmio de atriz coadjuvante numa peça do Garcia Lorca e essas coisas que nos acompanham e talvez sejam curiosas para apresentar num blog, mas nunca num currículo científico). Havía a SÚMULA da FAPESP, que orientava a apresentação de informações importantes ao se submeter uma proposta de auxílio, e mais uma variedade de modelos.

Sendo uma testemunha ocular pré-histórica - no que se refere à plataforma "Lattes" - pude vivenciar a revolução que foi a implementação deste sistema. Para mim, jovem estudante na época, era fascinante participar desta comunidade virtual de pesquisadores brasileiros (na época eu participava de uma lista sobre temas de evolução organizada pelo Dr. Brian Golding chamada EVOLDIR, e já me sentia parte da famosa "comunidade científica internacional"). A plataforma "Lattes" era nosso "orkut científico" (hoje seria um "facebook científico"), e vivíamos inseridos na "rede", fazendo todo tipo de busca, fuçando literalmente na vida - científica - alheia.

Alguns pesquisadores da velha guarda não se emocionavam tanto com a novidade, preocupados que estavam em preencheer inúmeros campos do formulário com seus extensos currículos ou preocupados com o tipo de informação requerida nos campos a preencher: junto com a formalização dos dados na nova plataforma surgia um instrumento virtual de acesso amplo e irrestrito que permitia a qualquer um avaliar produtividade científica e quaisquer outros indicadores de desempenho acadêmico ou científico a partir dos dados inseridos ali. E a avaliação do pesquisador, tópico sempre polêmico devido à dificuldade de consenso sobre uma sistemática "universal" que seja fiel ao perfil avaliado, passava por uma reformulação, respondendo em parte a um modelo que valorizava mais a produtividade do pesquisador traduzida principalmente na publicação científica. Foi um marco na história dos currículos de cientistas e pesquisadores com implicações a curto, médio e longo prazo.

Enfrentado críticas ou sendo reconhecida como uma das maiores conquistas em termos de base de dados sobre uma comunidade científica, a plataforma Lattes está hoje intimamente incorporada no dia-a-dia da ciência brasileira e não há uma iniciação científica que passe à deriva.

Mas, voltando à questão que originou esse longo comentário, o preenchimento do currículo Lattes, é uma tarefa fácil? Como foi sua primeira vez?

Inclui abaixo minha resposta ao aluno, com algumas modificações, e convido os eventuais leitores do via a comentarem. Na ativa ainda...

ana claudia

Olá Fulano,
Tudo bom e você?
Sobre seu contato:
Preencher o "currículo Lattes" não é tão auto-orientado como parece inicialmente: uma mesma informação pode "aparecer" de formas diferentes em diferentes currículos.
Causas? Diversas:
1) porque já houve uma reformulação do programa e surgiram novas alternativas para melhorar o preenchimento, mas nem todo mundo consegue reorganizar os dados que foram armazenados anteriormente, principalmente num currículo extenso, porque dá muito trabalho;
2) porque alguns dados poderiam ser dispostos em mais de um lugar;
3) porque alguns dados não possuem campo adequado nos formulários disponíveis;
4) porque as várias áreas do conhecimento possuem idiossincrasias difíceis de serem incorporadas num "formulário universal" (justificando 2 e 3);
5) porque parece haver um certo oportunismo por parte de alguns "autores", contaminando a plataforma “Lattes” com informações duvidosas ou que supervalorizam o histórico científico do autor (aqui a coisa fica grave).
O MAIS IMPORTANTE: nunca deixar a informação ambígua (é uma coisa, mas parece outra...) ou errada (pior ainda). Apresente a informação da forma mais clara e honesta possível.
Lembre-se: o “Lattes" objetiva, principalmente, apresentar informações de um perfil de PESQUISADOR para a comunidade científica, dificilmente funciona como o CATHO ou algo do gênero, para facilitar contatos para emprego, então a forma de apresentar a informação é diferente, e o que valorizar também...
Para a questão que você me descreveu, entendo que haveria mais de uma forma de incluir estas atividades no seu currículo. Se quer incluir como projeto, reflita: Qual sua definição de projeto? A (sua) comunidade científica* compartilha deste conceito? Se sim, ok: inclua como projeto.
... se não? Pense bem nas principais características da atividade, ela pode ser reconhecida como projeto de pesquisa científica; ou é pesquisa de outra natureza; ou trabalho técnico; etc.? Sem bolsa, sem financiamento, sem orientador, sem vínculo formal... fica mais difícil mesmo de classificar uma atividade, não sei te orientar com base apenas nas informações que você descreveu. Minha IMPRESSÃO é que se você cadastrar como PROJETO, corre o risco de ficar ambíguo, pois a comunidade científica espera maior formalidade (a que eu “acompanho”, pelo menos).
*a forma de apresentação de algumas informações é óbvia, mas de outras nem tanto... nestas últimas podem haver diferentes interpretações por diferentes comunidades científicas (humanas e biológicas, por exemplo), fazendo com que a inclusão de um mesmo tipo de informação no “Lattes” ocorra de forma diferente (em campos diferentes, por exemplo).
DESCULPE não poder te dar a receita do que fazer. O preenchimento do “Lattes” é uma tarefa importante para qualquer pesquisador no Brasil (ou fora), mas não é tão simples. Seja o mais honesto possível. O campo "outras informações relevantes", ao final do currículo, é perfeito para incorporar quaisquer atividades "menos ortodoxas" que completam seu histórico acadêmico e/ou científico - parece ter sido sua opção, provavelmente eu faria o mesmo.
Algumas observações rápidas sobre a apresentação do seu currículo “Lattes”...

E paro por aqui neste comentário :)

quinta-feira, setembro 29, 2011

Desculpem-me pelos transtornos... O via gene experimentou algumas alterações bruscas de formato hoje enquanto eu testava novos modelos de interfaces disponibilizados pelo Blogger. Infelizmente as mudanças trouxeram problemas para a visualização da maioria dos textos (pois originalmente os textos do via possuem letras em cores claras contra um fundo preto) que não foram corrigidos automaticamente e que eu não tenho a menor idéia de como resolver (considerando-se que eu não quero perder mais do que cinco minutos com isso :)). Para minha surpresa, a opção de "restaurar" as alterações retornando ao modelo original não funcionaram como eu esperava. Então, o via gene ficou com um "corte de cabelo" meio diferente... mas que ainda lembra o original. Espero que vocês não estranhem muito... ainda estou estranhando um pouco. E aind preciso treinar melhor minha aproximação com os novos modelos, que seriam bem interessantes, não fosse o fato da distorção que me frustrou um pouco.

domingo, setembro 25, 2011

a origem extraterrestre das bases do DNA

Figura 1: Imagem do glorioso filme E.T.
A Genética Molecular é uma disciplina que explora a natureza molecular do gene e alguns dos principais processos que operam na "rotina" de transmissão da informação genética, cujo fluxo se inicia na molécula de DNA (descrita em 1953 por James Watson e Francis Crick), que é então transcrita em uma molécula de RNA que será traduzida durante a síntese de uma proteína* (esta dinâmica ilustra o famoso "Dogma Central da Biologia Molecular"). 

* Nota: nem toda molécula de RNA transcrita a partir do DNA é traduzida em proteína (estão aí os rRNAs, os tRNAs, os snRNAs e inúmeros outros que não podem ser esquecidos!). O mRNA (mensageiro, transcrito final), este sim, segue para a síntese protéica, intermediando a relação Genótipo (DNA) - Fenótipo (proteínas e enzimas).

Dentre as primeiras imagens associadas ao estudo da Genética Molecular está o substrato fundamental da síntese de DNA, o desoxirribonucleotídeo trifosfato, que é constituído por um açúcar (uma pentose, no caso a desoxirribose, o "D" do "DNA"), 3 grupos fosfato (cuja ligação se dá com o carbono 5' da pentose) e uma base nitrogenada (são econtradas 4 bases diferentes no DNA, classificadas em purinas (A e G) e pirimidinas (T e C)) (Figura 2).

Figura 2 - Bases nitrogenadas "comuns"
 
No mês passado, foi publicado um artigo na revista científica PNAS (Proceedings of the National Academy of Sciences) descrevendo a abundância e a distribuição de bases nitrogenadas e estruturas análogas encontradas em meteoritos ricos em carbono (um tipo raro). A principal dificuldade dos estudos que analisam a composição dos meteoritos (oriundos do espaço sideral) é descartar a possibilidade de contaminação por compostos terrestres e validar a origem extraterrestre do material analisado. Este artigo conseguiu identificar bases nitrogenadas e análogos raros e medir suas abundâncias em diferentes meteoritos, utilizando-se da técnica de Cromatografia Líquida - Espectrometria de Massa. A origem extraterrestre das bases nitrogenadas foi validada por uma série de observações que incluiram a identificação de padrões de diversidade  molecular associados com a formação de séries de nucleobases estruturalmente homólogas e raras (ou ausentes) no ambiente terrestre, a obtenção experimental destas bases a partir de  reações em Cianeto de Amônia em laboratório (simulação do ambiente químico do meteorito, gerando as bases Adenina, Purina, Hipoxantina, 6,8-diaminopurina, 2,6-diaminopurina, Guanina e  Xantina, em ordem decrescente de abundância) e o uso de controles experimentais ou "branco" (amostras genuinamente terrestres) com precisão para identificar a presença de até uma parte por bilhão de um componente (as bases 6,8-diaminopurina e 2,6-diaminopurina, por exemplo, nunca foram detectadas nos controles, incluindo amostras de gelo Antártico e de solo de locais onde os meteoritos foram originalmente encontrados).

Considerando-se que estas unidades, as bases nitrogenadas, são fundamentais para estrutura dos ácidos nucléicos (DNA e RNA), e que estes são componentes essenciais para o desenvolvimento da vida na Terra (como a conhecemos), o artigo conclui que os meteoritos podem ter providenciado um "kit" básico de componentes moleculares essenciais para origem da vida neste planeta e possivelmente em outros (registre-se que também já foi encontrada grande diversidade de aminoácidos e análogos nestes meteoritos).

O título do artigo original:
"Carbonaceous meteorites contain a wide range of extraterrestrial nucleobases", o primeiro-autor (e vários outros) são da NASA, agência espacial americana. Um vídeo bem informativo sobre este estudo, com narração do primeiro-autor do artigo, pode ser visualizado aqui
Este semestre, este artigo foi apresentado para os alunos dos cursos de Ciências Biológicas da UFSCar - Sorocaba como forma de aproximar os conteúdos tratados em sala de aula - no contexto da Natureza Molecular do Gene - aos desafios atuais da pesquisa científica em áreas de fronteira de conhecimento. E, convenhamos, esta perspectiva extraterrestre associada à origem do nosso DNA é ou não é de arrepiar? Caso alguém tenha interesse, posso compartilhar maiores detalhes sobre a atividade desenvolvida em sala de aula (esta primeira versão foi satisfatória, mas pode ser aprimorada), sugestões neste sentido são bem-vindas.

anaclaudia

quarta-feira, setembro 21, 2011

Encontro Hipertexto 2011

Imagem do ClustrMaps sem o "maps"
Percebi um "mini-surto" de acessos ao via gene há poucos dias atrás e fiquei pensando sobre a origem destes acessos ("antigamente" havia uma ferramenta que gerava dados muito informativos sobre quem acessava nossos blogs, não lembro se era uma versão anterior do ClustrMaps ou um aplicativo similar, chamava-se MAPSTAT).  O fato é que era muito divertido ver os resultados do MAPSTAT, como vocês podem ver (ou relembrar) nesta postagem antiga do via gene.

Na minha imaginação, correlacionei o aumento dos acessos à divulgação do Caderno de Resumos do Encontro Nacional de Hipertexto e Tecnologias Educacionais (Hipertexto 2011), que será realizado na próxima semana (dias 26 e 27 na UNISO). 


quarta-feira, agosto 10, 2011

A educação e as tecnologias digitais


Arquiteturas hipertextuais e tecnologias educacionais

...é como se denomina o Grupo de Discussão criado por Luiz Antonio Garcia Diniz; Gustavo Rojas e Tárcio Minto Fabrício da UFSCAR- São Carlos que compõe a programação do evento "IV Encontro Nacional de Hipertexto e Tecnologias Educacionais: hipercomunidade, escola e tecnologias digitais: entre o não ainda e o já passou"

O  objetivo  deste  G.D.  (número 25 na programação) é  a  reflexão  e  aprofundamento  analítico  de  práticas  de  divulgação científica  e  ensino  de  ciências  que  têm  como  objetivo  a  consolidação  de  plataformas metodológicas construídas ou a serem construídas visando contribuir com uma cultura científica. Nesse vasto campo de conhecimento em constituição, há de levar em conta a recente mudança de paradigma dos meios de comunicação e práticas informacionais e, nesse sentido, estaremos abertos às experiências mais diversas, tendo em vista a matriz  interdisciplinar que permeia tais reflexões. Assim,  consideramos  importante  abrir  a discussão para os  campos das experiências artísticas  visando  a disseminação  científica, para o  jornalismo de divulgação  científica, para as redes  hipertextuais  de  cunho  educacional,  para  as  metodologias  de  educação  ambiental,  ou ainda,  àquelas  relacionadas  a  campos  específicos,  tais  como  a  astronomia,  a  física,  enfim,  ao conjunto de saberes que estruturam nossa sociedade. Nesse sentido, nosso G.D. busca ampliar e agregar um conjunto de  saberes bastante expandido que envolve pesquisadores, estudantes e professores que se sentem em relação de proximidade com os temas propostos.

O via gene foi convidado a se apresentar... estaremos lá!

As inscrições continuam abertas até 30 de agosto.

sábado, agosto 06, 2011

Di-google-ação Científica: Ferramentas para o cientista-divulgador

Saiu esta semana no Jornal da Ciência uma notícia sobre uma iniciativa do Google com potencial para revolucionar a divulgação científica integrando o cientista ao universo tecnológico disponível e em desenvolvimento em comunicação. Para a fonte original e detalhes, clique aqui

quarta-feira, maio 11, 2011

uma baixa no FRONT...

Fonte: J. Ipanema
Há quem diga que é preciso matar um dragão por dia referindo-se ao dia-a-dia do exercício profissional. No caso do soldado, o combate é a realidade do seu "exercício profissional", refletindo sua atuação em defesa da nação, de valores, de uma idéia... Neste contexto, a morte em combate é a honra maior do guerreiro, a morte digna para quem viveu em defesa de um ideal. Nesta história, quero falar de um soldado que combate a ignorância e defende a educação, aquele que chamamos de professor... que também defende uma nação, valores e idéias. E no dia de hoje registro aqui uma "morte em combate", um soldado abatido no front, na figura de um professor universitário.

A UFSCar campus Sorocaba despede-se hoje de uma figura singular da sua história: o Prof. Dr. Marcos de Afonso Marins. Como docente da instituição desde 2007, tive a oportunidade de participar de alguns encontros e assistir a palestras do Prof. Marins, sempre sorridente e distribuindo orientações sobre a atuação docente, seus deveres e responsabilidades com a universidade. Fazia isso com gosto! Como se animava e discursava com entusiasmo sobre fatos marcantes da "história evolutiva" da pesquisa e pós-graduação da UFSCar, tendo sido "sócio-fundador" do primeiro programa de pós-graduação em Ecologia e Meio Ambiente do Brasil em 1976 (o curso de Pós-Graduação em Ecologia e Recursos Naturais). Sob orientação do Prof. Marins foi defendida a primeira dissertação de Mestrado da UFSCar (de MARILENE CRUZ BARBIERI em 1978). Deve ter sido este espírito desbravador que fez com que ele se envolvesse de corpo e alma com a implantação do novo campus da UFSCar em Sorocaba (cujos cursos de graduação iniciaram em 2006, utilizando a estrutura física - salas de aulas e laboratórios - da FACENS - Faculdade de Engenharia de Sorocaba). O prof. Marins será lembrado com saudade, seus emails e seu jeito singular de pronunciar UFSCar também. Se ele matava um dragão por dia eu não sei dizer, só sei que ele parecia estar se divertindo, pela forma sempre entusiasmada que atuava junto à universidade. Deixo aqui este texto como uma homenagem a este grande professor. Que venham os dragões...

quarta-feira, fevereiro 09, 2011

auto-promoção

Mais uma vez um "post" sobre a análise de "DNA barcodes" (já comentado aqui e aqui), mas desta vez é mais autopromoção do que reflexão ou histórias passadas. Recentemente o CNPq lançou uma chamada para financiar a análise de DNA barcodes em larga-escala no Brasil, denominada "Identificação Molecular da Biodiversidade". A proposta de rede tem a coordenação do Prof. Dr. Claudio de Oliveira, pesquisador 1A do CNPq e docente da UNESP no campus de Botucatu. Foram aprovados 10 sub-projetos vinculados à rede, incluindo um sub-projeto sob a coordenação da Profa Dra Ana Maria L. de Azeredo Espin, da UNICAMP, que irá concentrar esforços para obter a caracterização da sequência de "DNA barcodes" de mais de 2.000 espécies de invertebrados terrestres. Minha participação neste sub-projeto já rendeu um nota divulgada no "site" da UFSCar.

Nota de esclarecimento: "DNA barcodes" refere-se a uma estratégia de análise que compara as sequências de DNA de um trecho de ~ 650 pb (pb = pares de bases ou nucleotídeos) do gene da subunidade I da Citocromo Oxidase C - COI, um gene codificado pelo DNA mitocondrial, de várias espécies animais (incluindo vários indivíduos de cada espécie, podendo variar entre 3 até 10). A análise da divergência encontrada na comparação entre quaisquer 2 sequências (ou seja, a quantidade de variação entre elas) pode indicar se as sequências pertencem a uma mesma espécie ou a duas espécies distintas. Um ponto importante que pode tornar esta análise mais complexa é que existe polimorfismo genético nestas sequências, ou seja, existe variação genética mesmo entre dois indivíduos da mesma espécie. Então a análise precisa ser baseada em intervalos de variação, limites e uma boa amostragem. Na tradução para o português, o "DNA barcodes" tornou-se o "código de barras da vida", uma estratégia que requer enorme integração das áreas de taxonomia e genética, ao meu ver imprescindíveis para a condução de estudos cientificamente bem fundamentados.

Reproduzo abaixo a notícia, na íntegra, que saiu vinculada na página de internet do campus Sorocaba da UFSCar após entrevista com Márcia Dias do CCS/UFSCar-Sorocaba:

"Docente do campus Sorocaba participa de pesquisa sobre Identificação Molecular de Invertebrados Terrestres

A docente Ana Cláudia Lessinger, do campus Sorocaba da UFSCar, integra um grupo de 50 pesquisadores de todo o Brasil que desenvolverá um estudo em rede sobre a Identificação Molecular da Biodiversidade Brasileira (BR-BoL). O projeto recebeu um financiamento de R$ 5 milhões do Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq). O estudo terá como base a caracterização de sequências de DNA das mais variadas espécies de borboletas, mariposas, abelhas, formigas, moscas, besouros e minhocas.

A pesquisa de Lessinger integra o grupo que trabalhará na identificação molecular dos invertebrados terrestres da fauna brasileira. Este subprojeto terá a coordenação da pesquisadora Ana Maria Lima de Azeredo Espin, da Unicamp, e o financiamento específico de R$ 600 mil. A docente da UFSCar, que tem experiência na área de Genética com ênfase em genômica mitocondrial e comparativa, também está orientando uma dissertação de mestrado sobre o uso de sequências de DNA para identificação taxonômica de moscas e participa da gestão da equipe de trabalho junto à coordenação do sub-projeto.

Segundo a docente do campus Sorocaba, estima-se que a pesquisa fará inicialmente a análise de DNA para a identificação taxonômica de aproximadamente 2.250 espécies de invertebrados terrestres, a partir de análise de amostras recém-coletadas e exemplares de museus e coleções entomológicas. Lessinger considera a realização dessa pesquisa importante para o Brasil. "A proposta é estabelecer um sistema de identificação molecular para integrar inventários de biodiversidade no País", explica. Sendo o Brasil um país com alta diversidade de espécies animais, essa pesquisa é um esforço pioneiro no sentido de acessar a biodiversidade molecular brasileira. Segundo Ana, os pesquisadores acreditam que o que se conhece da diversidade de invertebrados, representa apenas 10% do que se prevê que exista. "Esta identidade molecular, depositada em banco de dados, promove o acesso ao conhecimento taxonômico além de representar uma estratégia inovadora e de caráter multidisciplinar", afirma a docente.

No campus Sorocaba, Ana Lessinger vai desenvolver sua pesquisa no laboratório de Genética Molecular, onde serão realizadas as extrações de DNA e o isolamento da região gênica que será estudada. O sequenciamento desse material será feito pelo Laboratório de Genética e Evolução Animal da Unicamp. As sequências nucleotídicas serão enviadas para o Núcleo de Bioinformática do BR-BoL (Fiocruz-MG) e, posteriormente, estarão disponíveis para a análise que será feita pela equipe da professora Ana Lessinger, nos laboratórios do campus Sorocaba da UFSCar."

terça-feira, fevereiro 01, 2011

Divagando... divergindo... dialogando?

"Se diverges de mim, me enriqueces"

Segundo o google estas palavras são de Dom Helder Camara... (que eu havia confundido com Dom Evaristo Arns... santa ignorância). É uma frase bonita, não? Veja pelo lado do "impossível": quantas pessoas vc conhece, com quem convive, no trato pessoal e profissional, que já pronunciaram estas palavras? Falo de gente mais mundana (= do mundo), para as eminências religiosas, tamanha "aceitação do outro" é exercício diário, aprendido já no jardim de infância. Tudo bem, mesmo que sejam raros os exemplos daqueles que verbalizam com naturalidade (de forma autêntica) este convite ao diálogo, quantos outros você acha que verdadeiramente se preocupam com isso nas suas interações cotidianas. Estamos (ou já passamos?)  na "Era da Informação", cujo fluxo se viabiliza pela comunicação, que permite que se compartilhe informações complexas entre diferentes continentes em poucos segundos (basta ver esses pontinhos vermelhos nos mapinhas que normalmente acompanham os blogs, que o autor confere diariamente com orgulho de transitar pelos mais longínquos recôncavos - não é o caso do via gene - ainda :)). Como a dita "Era da Informação" lida com a dificuldade de diálogo e de reconhecimento e valorização de opiniões divergentes? Este é um cenário que infelizmente é mais frequente do que gostaríamos. E pior: nem sempre posso dizer que sou imune a esse fenômeno que transforma o que poderia ser uma discussão enriquecedora em uma briga de surdos! Mas a cultura do diálogo poderá vingar, e vejo nos blogs científicos uma oportunidade de também exercitar este talento, vocês não concordam (lembrem-se: se discordarem, me enriquecem!)? Descupem-me pela provocação, mas não resisti :)

ana claudia  

quinta-feira, janeiro 27, 2011

Não me perguntem sobre minha tese...

Lembram-se desta frase? Quem já passou por uma tese de mestrado sabe do que estou falando... essa sensação de querer ver uma luz no fim-do-túnel, de querer acabar com o que acaba com você (por mais apaixonado que você possa ser pelo tema que te consome), de colocar um ponto final numa idéia que iniciou com um ponto de interrogação (que normalmente se desdobra em inúmeros outros pontos de interrogação...  ilusão a sua de que "pontos finais" existam em ciência). Daí vem esse chavão que acompanha os momentos finais - intermináveis nos parecem - da construção de uma dissertação (ver aqui outro "post" a respeito).

Toda esta introdução para justificar a presença de uma "peça" que tirei do fundo do baú: um simbólico desabafo que consta num das páginas iniciais da minha dissertação de mestrado e que foi resgatada hoje enquanto revisava a dinâmica colorida de alguns cromatogramas* (será que existe mais alguém no mundo capaz de se emocionar frente a uma dança de cromatogramas?):

TENTAÇÃO

TENTO HORAS, SEMPRE E TANTO

MAS SÃO TANTAS HORAS E TANTOS TENTOS

QUE ME DESCONTENTO E TANTO FAZ,

SE FEZ, SE DIZ, SE QUIS

SER SEMPRE TÃO FELIZ...

MAS TANTO QUANTO POSSA,

VOLTO O VER-TE RICA ENFIM, ME ENCANTO:

GIRA, PISCA, GRITA E BRIGA!

VEM DE NOVO E TOME TENTO

E TENTE O TEMPO TODO E SEMPRE

E TERMINE O QUANTO ANTES POSSA

A ANGÚSTIA DO APRENDIZ SEDENTO

QUE DECIFRA A BIO-HISTÓRIA ESCRITA

COM SEMPRE AS MESMAS QUATRO TENTATIVAS

QUE SÓ A VIDA, FAISCANTE CHAMA, PRODUZ.

O texto data de 15 de outubro de 1997, defendi a tese em 06 de janeiro de 1998, então dá para imaginar mais ou menos o momento do processo em que eu me encontrava :)
 
Estava naquele estado em que se quer acabar a dissertação, mas não necessariamente com o trabalho! A escolha de continuar esse trabalho é uma afirmação diária que me acompanha desde algum momento do curso de graduação em Ciências Biológicas até hoje.
 
Hoje - revisando alguns dados de sequências nucleotídicas - confirmei novamente meu fascínio por esta estrutura que é a molécula de DNA e o modo como ela se constrói e desconstrói numa dinâmica estrutural que abriga desde mutações pontuais a violentos rearranjos. Abriga também trechos conservados, que são homólogos entre amplas extensões taxonômicas (desculpem-me os taxonomistas de plantão se subverti a linguagem aqui...) e contam a história das relações evolutivas entre diferentes grupos de organismos.
 
*cromatogramas ou eletroferogramas são representações gráficas do resultado de um sequenciamento de DNA, em que os diferentes nucleotídeos de uma sequência são representados por picos de diferentes cores (mais).
 
As vezes bate uma nostalgia...
 
ana claudia

terça-feira, janeiro 25, 2011

fênix?

Para inaugurar os textos de 2011..
Será preciso reinventar o viagene?
Novamente surge um ano acadêmico com inúmeras demandas (como não poderia deixar de ser), e espero incluir o via entre as metas para 2011. Quem sabe assumindo um padrão mais sistemático - perdendo seu charme (?) errático de blog científico de postagens irregulares. Invejamos (eu e o via gene) os blogs com os carimbos de hard blogging scientist,  são pesquisadores dedicados e comprometidos com a divulgação científica. Tirando algumas fraudes científicas, prêmios nobel, cientistas midiáticos ou "bad-boys" e personagens de desenho em quadrinhos, poucos cientistas chegam ao grau de celebridade (ainda bem!), mas com os blogs científicos e textos de qualidade , o "grande público" tem a oportunidade de conhecer os cientistas reais, através daqueles que se dedicam ao "ofício de blogar suas experiências e opiniões em ciências. Errático ou não, o via gene se apresenta em 2011.
   

quinta-feira, junho 24, 2010

Post-propaganda do núcleo ETC da UFSCar Sorocaba

E-ducação

T-ecnologia

C-ultura

A UFSCar campus Sorocaba conta com um novo espaço para difusão de Educação, Cultura e Ciência que pretende oferecer uma interface entre universidade e comunidade para promover a elaboração de projetos nestas áreas. Ontem foi inaugurada a primeira etapa de revitalização deste espaço (ou Núcleo de Educação, Tecnologia e Cultura), que está passando por uma extensa reforma. Há um auditório para mais de 200 pessoas, salas de informática, sala de projetos e outros espaços a serviço da formação científica e cultural de Sorocaba e região. Dirigentes da UFSCar e figuras públicas e políticas participaram ontem do evento de inauguração e reafirmaram, em praticamente todos os discursos, que a articulação de diferentes esforços, aliando diferentes frentes políticas e acadêmicas em torno de uma proposta comum, funcionou muito bem para que este espaço fosse concretizado (quase que literalmente :)), a exemplo do histórico de implantação do próprio campus da UFSCar na cidade de Sorocaba O prédio onde está instalado o núcleo fica no Bairro Santa Rosália, próximo ao Supermercado Extra. Saiba mais aqui.

segunda-feira, maio 31, 2010

Encaminho ao ViaGene uma mensagem que recebi por e-mail e que mostra um pouco da dor e frustração de pesquisadores do Instituto Butantan sobre as declarações do ex-diretor do instituto.

Caros Colegas,



Não bastasse a tragédia em si, declarações estarrecedoras de liderança científica denigrem ainda mais a imagem da Instituição. Lamentamos.


Abaixo, encaminhamos um texto elaborado por Pedro Nunes e Felipe Curcio do IB-USP, publicado na íntegra no http://colunas.epoca.globo.com/planeta/2010/05/20/cientistas-rebatem-declaracao-de-ex-presidente-do-butantan/


Compartilhamos dessa opinião.

Laboratório de Ecologia e Evolução


Instituto Butantan


Otávio Marques
Maria José de J. Silva
Nancy Oguiura
Ricardo Sawaya
Selma Almeida-Santos
Hebert Ferrarezzi


Apelo dos bobos aos que não querem reconstruir

O incêndio que consumiu tragicamente o maior acervo de serpentes e artrópodes neotropicais sediado no Instituto Butantan atingiu em cheio quase toda a comunidade científica do Brasil e do mundo. O termo “quase”, entretanto, é obrigatório nesta frase. Se um, e apenas um cientista, acredita que a coleção perdida era uma bobagem, e que o que se perdeu nada significa diante de outras questões prioritárias como a produção de vacinas e soros, já não seria unânime considerar o ocorrido como trágico.

Infelizmente, o depoimento do Prof. Dr. Isaías Raw à Folha de São Paulo, em 20/5/2010, atesta esta triste realidade. Segundo o Dr. Raw, a coleção “é uma bobagem medieval” e a única função do Instituto Butantan é “fazer vacina para as crianças” e não “cuidar de cobras guardadas em álcool”.

É curioso como a opinião pessoal do Dr. Raw destoa da visão da imensa maioria da comunidade científica. Pode-se até respeitar que ele acredite que o Instituto Butantan devesse se dedicar unicamente à pesquisa aplicada, deixando de lado a pesquisa básica, ainda que a história diga o contrário. Fosse assim, o acervo de mais de 80 mil serpentes e 450 mil artrópodes não teria sido construído em 100 anos de trabalho, à revelia de gente que opina como o Dr. Raw e da falta de apoio pelo poder público.

Parte da história da fauna brasileira foi incinerada. Espécies raras, criticamente ameaçadas de extinção, estavam somente representadas no acervo perdido. Outras, só foram descobertas e trazidas ao conhecimento público graças à existência deste acervo. Isso sem contar as várias espécies novas, ainda não catalogadas pela ciência, cujas descrições estavam em andamento com base em espécimes que se perderam no incêndio.

E porque tanto fogo? Seria de fato bobagem armazenar espécimes em um líquido combustível como o álcool? Este procedimento de estocagem é padrão internacional. Qualificá-lo como “bobagem” é o mesmo de dizer que são “bobos” todos os museus de renome mundial, nos Estados Unidos, na Europa e em outros centros de excelência de pesquisa em zoologia. Será que o único investigador inteligente no mundo é de fato o Dr. Raw? Será que todos os inúmeros colegas que se comovem com a perda do acervo do Butantan estão de fato perdendo seu precioso tempo juntando esforços para reconstruir esta “bobagem”?

Como, até o momento, nenhum colega manifestou-se de forma semelhante ao Dr. Raw, sua afirmação parece vazia, desrespeitosa e, acima de tudo, cruel. Mesmo o “mais importante zoólogo vivo do Brasil” (conforme relato da própria Folha), apesar da crítica descabida ao trabalho dos investigadores do Butantan, reconhece a importância do acervo no mesmo artigo em que o Dr. Raw expressa sua controversa opinião.

Para dar alguns exemplos práticos e diretamente aplicáveis de como as coleções científicas do Instituto Butantan eram usadas, entre muitas outras aplicações, é através de acervos assim que a classificação de serpentes e artrópodes peçonhentos é possível. Graças a “bobagens” como esta, é possível identificar a existência de diferentes grupos de ofídios ou aracnídeos e assim desenvolver soros específicos e mais eficientes para cada um desses grupos. A impressionante produção científica do Dr. Raw é principalmente embasada em imunização.

Teria ele a consciência de que o desenvolvimento de soros e vacinas eficientes depende da identificação precisa do patógeno, bem como do estudo de suas relações de parentesco? Ficamos curiosos em saber como Dr. Raw foi capaz de produzir tanto conhecimento sem o apoio de sistematas e taxonomistas, profissionais que trabalham com o tipo de “bobagem” que o fogo destruiu.

Mais sensato seria se o ex-presidente da Fundação Butantan optasse pelo silêncio e celebrasse a tragédia no conforto de sua residência. Vir a público com declarações infundadas, reducionistas e sarcásticas é inadmissível e confunde a opinião pública que estava, até então, tendo uma rara oportunidade de vivenciar uma discussão sensata sobre a importância de se preservar e investir em coleções científicas como a que se perdeu. Entretanto, a considerar pelo seu estilo de gestão, historicamente criticado e visto como deletério por muitos dos colegas que trabalham no Instituto Butantan, a declaração do Dr. Raw não surpreende a ninguém que o conheça.

Neste momento tão inoportuno, seu sarcasmo e sua arrogância apenas tornam seu depoimento mais dolorido. É como se, durante o velório de um ente querido, a família fosse obrigada a aturar um lunático invadindo o salão, estourando uma garrafa de champagne e celebrando a ausência definitiva do morto. Por sorte, em algum momento, vozes inoportunas terminam por se calar, de um modo ou de outro. Assim desejamos.

Que falem os que tem algo de construtivo a dizer. Que falem os que sabem o quanto é difícil renuir recursos para a pesquisa de base no país. Que falem os que tem consciência que sem a investigação de base, “cientistas brilhantes” como o Dr. Raw não teriam escrito sequer uma linha aproveitável de ciência. Os demais, por favor, respeitem esta perda irreparável do patrimônio público.

Felipe Franco Curcio
Pós-Doutorando
Depto. Zoologia do Inst. de Biociências da USP

Pedro M. Sales Nunes
Doutorando
Depto. Zoologia do Inst. de Biociências da USP