terça-feira, novembro 21, 2006

email-denúncia: o ensino de biologia em risco?!

Reproduzo a seguir partes de um email denunciando a qualidade do ensino praticado em biologia. Se esse episódio é uma situação isolada ou ocorre de forma mais abrangente é discutível, mas não deixa de ser uma ilsutração triste de uma realidade possível no ensino de ciências (biologia, neste caso).
Achei pertinente trazer este tema à tona pela relevância e pela oportunidade de ampliar esta discussão num ambiente informal e democrático como o "blog". Gostaria de estimular que fossem "postadas" opiniões e comentários (inclusive respostas para algumas das questões "ensinadas" pelo ilustre professor de biologia - personagem "denunciado" nesta "matéria"). O mérito vai para a autora do e-mail pela sua maturidade em questionar a validade dos conteúdos apresentados pelo suposto mestre e sua independência e iniciativa para "buscar a verdade" pela rota alternativa: fora da escola. O relato é muito bem escrito e espirituoso até. Vale a pena conferir, mas alerto que podem ocorrer reações adversas como raiva, frustração, desânimo, indignação, entre outras... Mais uma sugestão de temática para discussão em foro mais amplo como o Roda de Ciência.
PARTE I

"Eu possuo um professor de Biologia que costuma fazer afirmações absurdas e sempre que o questiono ele finge não ter falado determinadas coisas (...) dá explicações ainda piores (...).

Entre muitas coisas, ele disse que cromossomos acrocêntricos não possuem satélite; que o sangue do tipo A é ácido e do tipo B é básico; que existe uma águia com 12 metros de envergadura; que tubarões possuem dentes do tipo siso...

(...) nas últimas aulas ele falou que as pálpebras são uma evolução de chifres. Questionei então como há animais que possuem pálpebras e chifres ao mesmo tempo, então ele disse que nesse caso não são pálpebras, e sim anexos da epiderme.

Gostaria então de saber se há alguma veracidade nisso (...)"


CONTINUA...

Parte II

"Infelizmente o ensino no país está todo errado. Acredito que não seja só na minha cidade, mas no Brasil inteiro segue-se a regra apostilas+macetes e o aprendizado fica pra segundo plano. Até metade do ano eu me irritava com isso, mas conseguia levar. Eu tinha uma visão meio inocente da coisa e era até egoísta - pensava que se eu cursasse Engenharia Mecânica na faculdade poderia me livrar de certas "responsabilidades".

Então quando chegaram as férias de metade de ano, minha mãe me deu um livro do Sagan (O Mundo Assombrado Pelos Demônios), e eu comecei a ler e procurar coisas diferentes. E quando recomeçaram as aulas comecei a questionar mais, e anotar no caderno para pesquisar depois sempre que algum professor falava algo absurdo demais. E o caso do professor de Biologia não foi único. Eu possuo outro (de Biologia também) que é todo místico e adora falar sobre milagres e lições de moral. Um professor de Inglês chegou a falar que o homem não foi à Lua (...). E a maioria não se importa em ensinar a matéria em si, apenas a mostrar como se resolve um exercício.

Quanto aos sisos do tubarão, estávamos numa aula sobre o aparelho digestivo. E como a digestão começa na boca, aprendemos os dentes. Então ele fez um desenho no quadro sobre os incisivos, caninos, molares... e falou "vocês reclamam quando tem que tirar 4 sisos, é porque não conhecem o tubarão que possui XXX dentes do siso" (não lembro agora qual a quantidade que ele falou). Ainda nessa aula, ele falou sobre muitas pessoas estarem nascendo já sem os sisos, e puxou para o lado da evolução. Falou que a galinha não voa porque a asa que ela tem funciona como braços e começou a comparar vários animais. Então disse das pálpebras - não lembro exatamente o que o levou a dizer isto, mas já estou acostumada a ouvir informações que não correspondem exatamente à matéria.

Os cromossomos acrocêntricos pelo menos na minha apostila possuem satélite (mas ele nos mandou riscar!), e pelo que eu pesquisei no Google também possuem. Aí resolvi imprimir e mostrar a ele. Neste dia foi o cúmulo, pois ele teve a cara de pau de dizer que nunca falou que eles não possuíam satélite. Mas ele até nos mandou riscar...

Sobre a ave de 12m de envergadura (que segundo ele vive em algum deserto dos EUA), perguntei a ele onde ele viu ou leu tal coisa, porque a maior ave do mundo vive na Amazônia, e a ave símbolo dos EUA que possui a maior envergadura, pode chegar no máximo a 2.25m. Então ele tentou se esquivar falando que viu num documentário. Eu perguntei qual. Ele disse que não lembrava o nome. Então perguntei qual canal da televisão, porque eu poderia facilmente ver na revista da programação qual programa era. Por fim ele acabou admitindo que o tal documentário PODERIA estar errado.

Este é um dos professores preferidos da maioria dos alunos, outro dia uma menina me falou vários absurdos porque eu e uma amiga costumamos rir das coisas que ele fala. O pior da história não é exatamente ele, é quase todo mundo querer desesperadamente passar em um vestibular sem necessariamente ter aprendido algo e todo esse esquema músicas+macetes... E ironicamente eu estudo em um colégio particular na capital do estado com o 2º menor índice de analfabetismo. (...)

(...)


Uma pequena novidade: eu possuo aula nos dois períodos (matutino/vespertino) e hoje para minha "sorte" as três primeiras aulas da tarde foram trocadas para três aulas seguidas de ninguém mais, ninguém menos que o "famoso" professor. Enquanto explicava os diferentes tipos de tecido, ele falou que a pressão interna no corpo é igual a pressão externa! Se fosse assim, quando nos cortamos o sangue não sairia pra fora. Já encontrei um bom site sobre o assunto, só preciso esperar minha família comprar tinta para a impressora e levarei isto para ele ler (espero que o faça)."
Obs: este texto foi publicado com a concordância da autora do email. A identidade dos envolvidos foi preservada para evitar constrangimentos desnecessários e não minimiza a autenticidade do relato e seu impacto.

13 comentários:

Lucia Malla disse...

Inacreditavel. Estou em choque. Merece ser discutido mesmo no Roda.

Só gostaria de saber onde esse "professor" de biologia se formou... pq aula de curso achoq ele não assistiu muitas, né?

Beijos.

via gene disse...

Olá Lúcia!

Obrigada pelo comentário! Eu também fiquei chocada quando li a mensagem (enviada pelo e-mail que consta no via...). Será que a "culpa" é seria da instituição? Parece que o sujeito está fazendo "mau-uso" do diploma que tem... seja por carência de formação (aí a culpa é da faculdade) ou carência de caráter ou ética (e isso é mais difícil de corrigir...).

Destaco algumas passagens que achei mais reveladoras:

1) "...eu comecei a ler e procurar coisas diferentes. E quando recomeçaram as aulas comecei a questionar mais, e anotar no caderno para pesquisar depois..."
ana: pelo menos um aspecto "positivo"...

2) "Eu possuo outro (de Biologia também) que é todo místico e adora falar sobre milagres e lições de moral."
ana: isso também é o fim da picada!

3) "Este é um dos professores preferidos da maioria dos alunos..."
ana: veja como a situação é desanimadora...

4) "...ironicamente eu estudo em um colégio particular na capital do estado com o 2º menor índice de analfabetismo..."
ana: é preciso dizer mais?

5) "...só preciso esperar minha família comprar tinta para a impressora e levarei isto para ele ler..."
ana: tomara que isso aconteça!

Qual a solução?? Ser auto-didata? Vou sugerir que a aluna crie um blog :)

abraços
ana claudia

Daniel Doro Ferrante disse...

Oi Ana, Lúcia,

Eu, pessoalmente, não acho que seja possível querer culpar a instituição que "formou" (ou "deformou"!) esse(a) professor(a). Uma vez que vc deixa de ser aluno e vira professor... TUDO muda de figura e vc passa a ser o responsável pelas informações divulgadas. Então, nesse sentido, NÃO interessa se o(a) cara teve ou não má formação; a única coisa que importa é que, claramente, ele(a) NÃO prepara as aulas! Não há, sequer, uma revisão de conceitos pra se certificar de que o conteúdo sendo passado está correto. :-(

Então, não adianta "tirar o 'c' de 'ceringa'" que não dá pra "fugir da raia": Ou vc é responsável pelo que diz ou não é. É uma questão não só de responsabilidade social e cívica, mas também para com o dinheiro sendo pago nas mensalidades e que paga o salário desse(a) professor(a)!

Eu, por exemplo, cursei meu colegial num dos "melhores colégios do ABC Paulista", que certamente é a região de SP com maior índice de escolaridade, e, nem por isso, deixei de ver a parte que me cabia de absurdos, tanto escolares e acadêmicos quanto sociais e comunitários (no que diz respeito às pessoas que freqüentavam a escola).

Solução...?! Não acredito que exista uma... aliás, não acredito existir nem uma proto-solução: Ou vc cumpre as suas responsabilidades de professor (assim como definidas no contrato assinado pelos pais do aluno que paga a escola -- ou pelo contrato assinado pelo Estado) e honra o seu dever social e cívico (uma vez que é complicado de se honrar alguns níveis salariais -- apesar de que, no caso de escolas privadas, isso NÃO é argumento!), ou vc simplesmente vai fazer algo mais rentável.

A minha solução, em particular, sempre foi a seguinte: (1) Dormir; e (2) Jogar basquete! :-) Espero que isso não sirva de exemplo pra ninguém... mas eu dormia direto nas minhas aulas... ou, então, matava aula pra ir jogar basquete. Por outro lado, no meu tempo livre, eu fazia a única coisa que podia pra entreter as minhas dúvidas: "Ler a enciclopédia!" Como eu sempre fui mais quieto e não conhecia muito as possibilidades das bibliotecas ao meu redor, eu ficava em casa mesmo, sentado no chão, lendo o que me interessava. Só fui descobrir que isso era um problema e estava institucionalmente errado há uns 15 dias atrás, quando um amigo do meu orientador me disse, chocado (e explicou as razões para tal choque), que essa tinha sido a solução dada pelos professores dele também: Sentavam ele num canto e mandavam ler a enciclopédia. Mas, se é que vale de qualquer coisa, o Feynman também passou pela mesmíssima situação... e foi assim que ele aprendeu Cálculo ainda no colegial! ;-)

Portanto, pessoalmente, eu acho que aconselharia ou a conversar com o superior de tal professor (mostrando as evidências dessas atrocidades e pedindo por alguma atitude formal) ou simplesmente ignorar tudo e aprender sozinho. Assim, pelo menos, vc não corre o risco de deixar a escola interferir na sua educação. ;-) Pra mim, a solução com menos conseqüências indesejáveis foi a segunda...

Abraços, []'s!

Kynismós! disse...
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Kynismós! disse...

O Feynman teve foi sorte de ter o Bader como professor!

Tudo que foi descrito na mensagem é o mínimo do que acontece atualmente nas escolas de nosso país (principalmente as públicas), vocês que estão enclausurados na academia não tem noção do que rola no sistema de ensino, aí depois ficam me interpretando mal.
Óbvio que a academia tem muita culpa na história sim, pois vive colocando tipinhos como este no mercado de trabalho. Eu que fui formado em um departamento de física dos mais metidos a besta desse país que o diga... brincou chega algum colega já formado para me perguntar coisas do tipo (que não estão explicitamente escritas nos manuais): por que um teste de néon não acende em uma pilha de 1,5V?
Fala sério, a academia pública negligencia em muito na formação dos professores que dirá a particular. Já vi colocarem professores substitutos inexperientes para ministrarem cadeiras como Física Aplicada e História da Física, que obviamente exigem anos de experiência e muita bagagem.
Há também os casos dos raros que não foram formados para ensinar, mas estão aí inseridos no mercando cantando suas musiquetas e recebendo um salário muito maior do que os verdadeiros professores (estes são raros, mas existem).
No mais, se vivemos no reino dos macetes a culpa também é da academia que continua com esse modelo de vestibular que não valoriza a qualidade e sim a quantidade.
Pelo jeito o Daniel acredita muito na honestidade das pessoas... Arrego! Colocaram-me para ensinar ciências (os seres vivos) numa 6ª série do ensino fundamental, a diretoria da escola disse que era só ler o livro texto e passar para os alunos; óbvio que não era e só aceitei o desafio para os alunos não ficarem sem professor e porque os livros de divulgação sobre Evolução (Dawkins, Gould, Leakey, etc.). Biologia (Watson, de Duve, Schrödinger, etc.) e livros técnicos de Química (muita química) sempre estiveram na minha cabeceira, mesmo assim minha primeira atitude foi dizer aos alunos que não eu era biólogo e só estava ali como um quebra-galho, atitude esta que foi vista com maus olhos por alguns colegas professores...

via gene disse...

Olá Daniel, Olá K!

Obrigada pelas opiniões! Ficou a impressão de que o mundo é dos autodidatas... só assim para fugir das inconsistências persistentes do sistema de ensino... Eu tive uma professora de ciências na 8 série que ajudou a "pintar" um pouco a figura da biologia para mim, entre outras coisas, isso faz com que eu fique particularmente decepcionada com maus professores (e educadores piores ainda!). Além disso, ser autodidata não é uma condição amplamente fixada na população de estudantes (se fosse, nem seria necessária a escola, em princípio), então qual a saída para quem não aprende sozinho? Chorar... mudar de escola... (que só é uma opção no caso da particular), denunciar o prof. (e correr o risco de ser "perseguido")? Que dureza!

O complicado de culpar, em parte, a universidade é que de uma mesma instituição podem ser formados excelentes ou péssimos professores... por isso acho que a questão passa pelo caráter do indivíduo (como vc fez: ser professor substituto com "as cartas na mesa", o que, mesmo assim, não permite que se ensine absurdos e inverdades...).
Com relação a ser mal-interpretado, vale ver as referências do "post" abaixo (do Daniel) sobre dificuldades de interpretação em conversas de internet - quem sabe nos ajudamos?
http://blog.olympus.het.brown.edu/science/archives/2006/11/20/220/

Luis Brudna disse...

Gostei de ver o "Mundo assombrado..." no post. :-)
No meu blog nao gosto de falar sobre pseudociências. Pq sabe como eh, eh soh falar em um "virus mental" e logo alguem eh infectado por ele.
Eh preciso muito cuidado em abordar os erros.

João Giovanelli disse...

Tive professores ruins no ensino fundamental e médio, mas nada se compara com os que eu tive na Universidade. Acho que esta problemática da mediocridade dos professores é muito mais séria do que se imagina.
Na minha opinião nas Universidades a situação é bem pior, é uma mistura de soberba, inconpetência e talvez burrice. Fui um autodidata em várias disciplinas e sofri de tédio várias horas com as aulas de retroprojetores antigos em sala escura, com um professor alugando e enganando horas do meu dia.
Afinal nas Universidades públicas se faz pesquisas geniais e existe a dificil obrigação de se dar aulas, os doutores velhotes (que não descem do trono da arrogância) e os novos (com soberba e um lattes numérico) brincam de bang-bang nos departamentos e infelizmente acabam acertandos os alunos (ou atrasados por possuirem somente graduação).

Kynismós! disse...

Lendo o que o Giovanelli escreveu me lembro em muito de quase toda minha graduação... seria coincidência? :)

Aluna em questão disse...

Olá

Eu sou a menina do email em questão. Já li todos os comentários outro dia mas como é final do ano e tenho vestibular Domingo, Segunda e Terça ainda não tive tempo para responder com calma. E Ana, te enviei um email mas parece que voltou.
Meu professor tem falado ainda mais absurdos, ainda bem que Segunda será minha última aula com ele. Outro dia falou que as pálpebras são órgãos vestigiais, e ontem (pasmem) falou que no aborto, a criança é 'expelida' VIVA. Fiquei com vontade de falar que no caso então não é aborto, é parto, ou então eu fui abortada. O pior é que pouquíssimas pessoas notaram esse "detalhe" da aula. Bem, mas eu já passei o link do blog para algumas amigas que estudam comigo e elas ficaram felizes em saber que outras pessoas compartilham das nossas decepções.
Alguém havia perguntado algo sobre a formação dele então resolvi ir atrás. Minhas amigas perguntaram no final da aula sobre a faculdade que ele cursou, e ele disse que é formado em Ciências Contábeis. Parece que cursou Psicologia também, mas não terminou e o mesmo com Biologia - e segundo ele, há coisas mais importantes para fazer do que terminar uma faculdade, então ele não pretende voltar lá tão cedo.
Agora pelo menos sabemos porque ele fala tantas bobagens. O triste é que ele é um dos professores preferidos da maioria dos alunos e semana que vem na formatura, não lhe faltarão homenagens.
Agora preciso ir assistir ao trabalho de conclusão de curso da minha irmã, mas assim que possível releio todos os comentários (:
Obrigada por tudo.

Waquim disse...

não é um caso isolado mesmo, acontece em todo o Brasil.

Alexandre disse...

Boa noite!!!

Estou abismado com o que Li, sou professor de Biologia e estou terminando a minha pos graduação em Hematologia.

Obs:A unica coisa que diferencia os nomes dos cromossomos é a localização do centromero, eu como especialista em Sangue nunca ouvi maior absurdo do que esse de que sangue do tipo A é acido e do tipo B é basico...isso não existe, o que vai diferencias um tipo sanguineo do outro é os sitios antigenicos expressos na membrana eritrocitaria.


Meu e-mail é alesobreira7@hotmail.com, qualquer duvida.

Antonio Carlos disse...

Que vontade de morrer!

Também sou professor de biologia, com mestrado e cursando o doutorado agora. Nunca vi tanta besteira. Nem meus alunos conseguiriam tal façanha!

Em relação ao tipo sangíneo, se fosse assim, o A, ácido, e o B, básico, então o AB seria neutro!

Tenho um blog sobre assuntos interdisciplianres e educação. Quem quiser acessar, a url é
http://otaodabiologia.wordpress.com

Abraços inconformados,

Junior