sexta-feira, agosto 19, 2005

ciência punk

O blog do jornalista Marcelo Leite comenta uma reportagem que saiu na revista Super Interessante entrevistando o cientista punk (é isso mesmo!) e premiado (Prêmio Descartes 2004) Prof. Howard Trevor Jacobs.

Vale pelo inusitado: a imagem do cientista no contexto da rebeldia e do caos, ao invés da tradicional imagem associada ao controle e à formalidade. Por outro lado, a excentricidade sempre acompanhou o mundo científico, basta lembrar um Einstein com a língua para fora e cabelos caóticos.

Vou plagiar o Marcelo Leite no formato: incluí abaixo um trecho da entrevista da Super-Interessante e assinalei em amarelo trechos da resposta que valem a reflexão, aí vai:

"Você declarou que uma noite regada a cerveja pode ser mais produtiva que 20 anos de trabalho solitário em laboratório. Você acha que cientistas podem se beneficiar da atitude punk?
R: Em relação aos benefícios da cerveja, eu disse que "pode", mas não afirmo que faz. Trabalho árduo em laboratório também pode produzir bons resultados. A melhor ciência nasce da combinação entre experimentos rigorosamente conduzidos e a construção de hipóteses criativas, que contraponham idéias aceitas sem uma base de experiências, mas que são "suposições convenientes". Pessoalmente, acho que algumas cervejas, especialmente quando combinadas com um show de punk rock, podem ter um efeito positivo no raciocínio. Estimulação periférica freqüentemente ajuda uma idéia a se desenvolver mais do que quando você se concentra muito nela. "

Concordo com a parte da estimulação criativa provocada durante o "happy hour" com os colegas de laboratório (acho que já comentei algo semelhante em um post anterior).
Ah sim: outra coisa a favor do cientista punk: o trabalho dele é sobre genoma mitocondrial! Nota 10!

6 comentários:

Anônimo disse...

Ei, acho que o Marcelo nos inspirou a fazer um post sobre o assunto (eu tb fiz um)! Claro que o assunto é bacana. Eu gosto de ciência, mas não sou da área. Gosto de punk! Curti seu blog!!
Alessandra Carvalho
http://karapana.zip.net

Helô disse...

Ana,

Coincidentemente, hoje assisti uma palestra sobre os "10 hábitos de um cientista de grande sucesso", proferida por Michael Zigmond, Professor of Neurology and Psychiatry, Pittsburg University. Uma pessoa muito interessante, de idéias mais ainda, a não ser por uma delas. Não posso precisar agora quais são esses 10 hábitos, mas o que mais me chamou a atenção foi "HARD WORK". Segundo seus cálculos, um excelente cientista tem que trabalhar 70 horas semanais!!!! Tudo bem que ele disse que nessas 70 horas pode-se incluir o tempo que vc está tomando banho, mas está pensando na sua pesquisa ou conversando com amigos e coisas desse tipo. Mas mesmo assim... 70 horas???
Outra coisa que ouvi por aqui (não hoje), que foge mais ou menos do assunto deste post, mas que está associada à nossa vida dura de pesquisa, foi que para ser um bom pos-doc vc tem que publicar em Science e Nature. O resto é resto... Será que somos tão despresíveis assim? Mas a nossa mão de obra funciona bem, né!

via gene disse...

Olá Helô!

Finalmente organizei a confusão que fiz com relação ao "endereço" dos comentários... o seu certamente esteve aqui o tempo todo... vou tentar ser mais cuidadosa. Coisa de bloggeira acidental... me desculpe.

Este é um assunto muito interessante, que você comentou bem.

Pesquisador americano é o típico "workaholic"... E quando se está dormindo? É preciso sonhar com os tubos de ensaio, a criação de moscas e o experimento que ficou incubando "overnight" em banho-maria? Não que isso já não tenha me acontecido algumas vezes, mas não é a regra, ainda bem. O mundo da pesquisa científica é mesmo competitivo, e sobrevivem (melhor) os "workaholics" que publicam na Nature. Será que uma criança ou um jovem seriam deslumbrados pelo fascínio da investigação científica se eles vislumbrassem um futuro como "workaholics" Nature-ebas? Duvido muito. Acho que há alternativas a esses 10 hábitos "saudáveis" do bom cientista. Vou pensar em qual seria a minha lista ideal... hum...

Norma Farias disse...

Pegando o gancho de vocês... saiu uma interessante entrevista com o prof. geneticista Bernardo Beiguelman, no boletim da Agência FAPESP em 26/09 (a entrevista está no site da FAPESP). As considerações que ele faz são muito pertinentes para se pensar a produção de conhecimentos e o papel dos cientistas no Brasil. O título da entrevista (Por Eduardo Gerarque) é “Antropofagia científica” e fala da “necessidade de se criar um movimento antropofágico da ciência”. Beiguelman não nega a importância da língua inglesa e da ciência do hemisfério Norte, mas alerta para uma questão: O Brasil precisa criar seus modelos a partir de sua própria realidade e usar a ciência para resolver seus problemas. E acrescenta: “As revistas boas, feitas aqui, rejeitam sumariamente trabalhos escritos na língua que se fala no Brasil. Isso inclusive é anticonstitucional”. Na minha opinião, país que não tem sua própria formulação de política de Ciência, Tecnologia e Inovação, para responder às suas prioridades e necessidades, não pode ser soberano.E não nos iludamos: podemos falar inglês, sermos branquinhos e bonitinhos, conseguir uma parceria americana para sair num periódico de lá, mas para eles somos sempre uma boa mão de obra submissa e excelente para trabalhos de campo. Quero que fique claro que não estou declarando guerra ao Norte nem deixando de reconhecer sua expertise, mas chamando atenção para a nossa falta de soberania.
By the way, não acredito em receitas de sucesso como as dez fórmulas para ser um bom cientista, assim como não acredito em psicologia comportamental, na dieta só de carboidrato ou na dieta só de gorduras, etc.etc.etc. Uma boa questão de pesquisa, um resultado, um aspecto da discussão, surgem às vezes debaixo do chuveiro, no metrô, levando o cachorro para passear no parque Ibirapuera, num café olhando os passantes.... É incontrolável e não dá para se medir em termos de horas, nem fazer essa separação linear: dureza X prazer.
“O ócio criativo” também ajuda a ser produtivo e mais feliz.
(Desculpe Ana, acho que fui muito longa!). Abraços.

via gene disse...

Dá-lhe Norma!

Eu também li a entrevista do Prof. Beiguelman que você comenta.

Gostei e concordo com vários aspectos, porém tenho um certo conflito (meio mal-resolvido, talvez) com relação a essa necessidade de políticas científicas orientadas para estudos "do Brasil"... isto é, a mobilização no sentido de conhecermos e solucionarmos os "nossos" problemas é absolutamente relevante, mas também valorizando o investimento em pesquisa de ponta, inovação tecnológica e buscando capacitação em áreas de fronteira de conhecimento.

Na entrevista, o Prof. Beiguelman reconheceu que não podemos nos dar ao luxo de não dominar a tecnologia do primeiro mundo (o que significa investir pesado $$) em área como a da saúde (sua área, não é?), pois implica em sofrimento humano e outras condições humanas urgentes (um médico saberá melhor que eu defender esta posição), logo a pesquisa em saúde estaria como que um pouco "isenta" de um compromisso atropofágico absolutista (podendo-se, neste caso, recorrer aos modelos importados de pesquisa científica).

Se perguntar a um agrônomo ou economista entusiasta do Agronegócio, a questão do domínio da tecnologia, e da biotecnologia principalmente, também seria (aliás, é) invocada como estandarte de soberania nacional.

Realmente esse tipo de discussão merece um espaço maior (pobre deste blog pretender merecê-la), é extremamente interessante e polêmica, até.

Como eu disse, experimento um conflito aqui e fiz um pouco o papel do "advogado do diabo" pontuando apenas um aspecto da entrevista do Prof. Beiguelman - mas isso é porque a questão da linguagem (PORTUGUÊS X inglês), defendida pelo Prof., me incomoda um pouco: inglês é a língua que melhor promove o conhecimento científico (ao menos com relação à divulgação, à comunicação) considerando-se que ciência não tem fronteiras, por isso não vejo problema em se optar pela apresentação de um painél em inglês no Congresso Brasileiro de Genética (não acho que isso seja nem uma afronta à soberania nacional, nem um mau-exemplo, nem uma contribuição menor). Será inconstitucional? Preciso averiguar.

Na verdade, me fascina a idéia abraçar uma causa nacional como o Prof. Beiguelman sugere, mas desde que haja espaço para acomodar uma diversidade - saudável - de opiniões sobre como promover essa revolução pós-moderna.

Enfim, eu tenho mesmo essa "mania" de implicar com alguns pontos quando eles mostram esse potencial para a unanimidade (= defender o Brasil promovendo políticas científicas locais, regionais e nacionais, ser bem sucedido e ainda desafiar o primeiro mundo introduzindo um revolucionário modelo de pesquisa científico onde a dimensão social - e não a inovação tecnológica - é a força motriz). Claro que eu quero participar disso, mas com críticas sempre, que sejam construtivas!

Norma, desculpe-me pelos os eventuais exageros e não é muinha intenção ser provocativa (deixo isso para o Marcelo Leite), gostei muito da sua colocação e me identifico muito com esta preocupação. Seja bem-vinda a manifestar-se com toda liberdade!

um abraço!
ana

Norma Farias disse...

Dá-lhe Ana!

É uma discussão mesmo polêmica e há pontos controvertidos e diversos aspectos da questão a serem considerados. Pena que não cabe num espaço de um blog. Só mais uma coisinha: na minha área (a saúde) acho que deveria sim!investir pesado $$ para pesquisas estratégicas. Não concordo que tenhamos, por exemplo, somente comprar e incorporar. Um bom exemplo tem sido a fábrica de vacinas do Butantã que nos torna mais soberanos e menos dependentes numa questão tão básica...
Bem, até o próximo. Abraço,Norma.