quarta-feira, julho 05, 2006

breves notas da Nature

Mais uma vez pequenas notas sobre algumas notícias do último volume da revista científica Nature:

1 - Blog também é ciência - mais uma vez a blogosphera científica conquista espaço em uma das mais conceituadas revistas científicas da atualidade. Aqueles que desdenham do potencial informativo e de divulgação deste "sistema de comunicação" on-line, open-access, altamente atualizado e de autoria não-anônima (o cientista exposto - taí outro bom nome para um "blog" científico) representado pelos blogs científicos vão, aos poucos, perdendo o bonde para uma comunidade científica mais comunicativa e aberta a inovações que democratizam o conhecimento e a participação irrestrita através de fóruns e painéis de comentários não-moderados (preservando-se a pauta científica, claro). A Nature lista os "TOP 5 blogs" científicos e explica sua metodologia via-technorati de "rankeamento". Uma versão mais extensa, incluindo os 50 blogs científicos mais "populares" também aparece como link na página da Nature.

Eis os TOP 5:
TOP1 - Pharyngula
TOP2 - Panda's Thumb
TOP3 - RealClimate
TOP4 - Cosmic Variance
TOP5 - The Scientific Activist

Alguns pontos de vista com os quais eu concordo:
1- Segundo Paul Myers, do blog Pharyngula: "A blog's more like the conversation you'd have at the bar after a scientific meeting";
2- Segundo Stefan Rahmstorf, do blog RealClimate: "the blog fills "a hunger for raw but accessible information" that goes deeper than newspaper articles, but is more easily understood than the scientific literature"; e
3- Segundo Sean Carroll, do blog Cosmic Variance: "Citing other blogs is a sure-fire way to get their notice and maybe a citation in return". But he cautions that citation counts and rankings can be a distraction. "It would be a shame if people worried about traffic and not about having a good blog".

2 - a caixa preta dos artigos científicos - do Editorial:
"That might seem obvious. But despite the efforts of our editors and referees, papers in the biological sciences are still being submitted — and occasionally published — that do not adequately describe the reagents used. Unless efforts are redoubled to eliminate this practice, we could see an era of 'black box' biology, in which outside researchers cannot work out what was done in an experiment."

Um editorial muito interessante comentando a publicação de artigos com metodologias incompletas ou ausentes em áreas de fronteira de conhecimento (como RNAi = RNA de interferência) e a política da revista em coibir tal prática e desestimular a submissão de artigos onde a metodologia não esteja explícita ou que informações complementares não sejam fornecidas pelos autores a quem quer que as solicite. Questões de patentes e desenvolvimentos na indústria e em empresas de biotecnologia são citadas como os agentes responsáveis pela prática de omitir informações estratégicas para a reprodução de determinado experimento - que as vezes passa desapercebida por revisores e editores - prática que será combatida com maior rigor.

3- a questão do peer-review - mais 4 breves comentários (acesso livre) sobre peer-review e autoria de artigos científicos. Destaco um que achei interessante - "Second Thoughts on who goes where in author lists" - que mostra a crescente importância do "corresponding author" (autor para o qual são encaminhadas eventuais questões, dúvidas ou solicitações de "reprints", normalmente o coordenador - mas não necessariamente o executor ou responsável direto - da pesquisa, o chefe-de-laboratório ou o idealizador do experimento). Dependendo do critério de avaliação, este autor (o "corresponding" ou "communicating author") é pontuado tal qual o primeiro autor do artigo ou recebe até uma pontuação maior (se não me engano, no último concurso para pesquisador da EMBRAPA, o candidato recebia maior pontuação quando citado como "corresponding author" do que se fosse um co-autor em outra "posição" da lista de autores - excetuando-se a posição de primeiro autor, cuja pontuação era a maior). Enfim, é uma discussão interessante. Como disse o autor da nota (William F. Laurance), antes de assiná-la: "Please note that I am the first, last and communicating author on this Correspondence", bem-humorado, não?

4- Um texto interessante do blog A Blog Around the Clock - que não é dos TOP5 da Nature (mas está entre os TOP50) - que também comenta sobre a blogosphera científica e seu impacto no futuro da ciência. Abaixo um trecho da introdução à matéria "postada":

"With a new blog being started every 7.5 minutes, and about 2 million blogs in existence right about....now...I want to start thinking about them a little bit more, particularly in the context of my own interest - science. What follows is likely to be an incoherent rant, but I need to write this in order to organize my own thoughts, so bear with me and please post comments. First, a bit of thought about blogs in general, then some thoughts about science, then later I will be putting the two together to try to see the role of blogs in science and how they may affect the way science is done in the future."

e... mais um pequeno trecho para despertar seu interesse nesta leitura:

"So, what is the role of blogs going to be in the future of science? I believe the blogs are going to speed up the internationalization of science, with positive effects for both American and foreign scientists. What expert science bloggers are doing right now and will do even more in the future is take expensive information and make it free. People with access to expensive journal subscriptions will link, excerpt, and comment on technical papers as soon as they are published, thus making them available to scientists in small schools, in foreign countries, and, importantly to, gasp - blasphemy! - amateur scientists. That is exactly what I intend to do with Circadiana. My scientific colleagues in Algeria, Argentina and Poland can contact me (or each other) and start fruitfull collaborations, not just read an occasional paper two months after its publication.."

That's all folks!

3 comentários:

Heloisa disse...

Oi Ana!
Meu comentário é sobre a "ordem" dos autores num paper. Isso foi tema de discussão aqui entre os brasileiros, porque uma moça (da Arqueologia) achou um absurdo uma nota num artigo de biológicas que dizia que os dois primeiros autores contribuíram igualmente na realização do trabalho (fato esse muito comum aqui). O cara da Engenharia Mecânica não achou o fato tão incomum, mas disse que temos que tomar muito cuidado com isso, porque há uma variação muito grande de uma área pra outra. No seu caso, p. ex., ele disse que é muito comum o chefe do lab ser o primeiro autor. Já a menina da Física (que aliás fez UNICAMP na mesma época que a gente!) disse mais ou menos o que acontece na nossa área: primeiro o executor, depois os colaboradores (outros alunos, pessoas de outros laboratórios) e por último o chefe do laboratório.
Depois disso, entramos numa outra discussão a respeito de como colocar alguns tipos de colaborações qdo vindas de outros laboratórios: fazer um agradecimento ou ser co-autor. Todos concordamos que aqui há uma forte tendência a ter muitos autores num mesmo artigo, muito diferente do Brasil qdo, na maioria dos casos, é aluno e orientador. Tá certo que não dá pra ser simplista. Há muita coisa envolvida. Mais um tema pra discussão :-)
Aproveitando o post e a similaridade do assunto, queria parabenizá-la pelos últimos artigos, como última autora. Já era pra ter feito isso antes, mas acabei esquecendo!
Beijo grande, com saudades.

via gene disse...

Olá Helô!
Obrigada pelo comentário! Eu também acho essa discussão super intrigante e com várias facetas. Só recentemente me dei conta que diferentes sistemas de avaliação do pesquisador (seja via concurso, seja via instituição, etc) podem pontuar diferentemente de acordo com a posição na lista de autores (que primeiro autor e co-autores eram "vistos" diferencialmente já se sabia, mas estes critérios adicionais vão deixando a 'trama' mais intrincada). Na nossa área o último autor é normalmente o orientador ou coordenador do projeto que originou a publicação, um "status" independente, de certo modo, do grau de envolvimento na execução da pesquisa - que abriga uma ampla gama de possibilidades. Agora, teoricamente, o "corresponding author" não precisa ser nem o primeiro, nem o último (uma vez que ele é indicado diretamente quando da submissão do manuscrito e não atribuído segundo a posição na lista de autores...). Será que existe uma regra universal para "regular" esta questão (eu, particularmente, aprecio a liberdade de poder decidir sobre isso, mas não posso ignorar que há "valores" imbutidos nestas posições - onde nós chegamos, não? Até aí há a paranóia do currículo competitivo... mas é uma discussão que está ocupando fóruns dos mais especializados, como a Nature, por exemplo)? E quanto aos últimos artigos, obrigada por mencioná-los, o mérito de primeiro autor vai aos bons alunos que tive (ou tenho) o privilégio de conviver e conquistar para a pesquisa com a mosca-dos-chifres, o mérito de último autor é conquista do programa PROFIX do CNPq, que acreditou em jovens pesquisadores e fez com que eles acreditassem em alternativas inovadoras em C&T no Brasil (pena que o programa não teve a continuidade inicialmente prevista, contando com apenas o primeiro e único edital de seleção de bolsistas). Mas não vou ficar melancólica neste final de comentário...

beijos,

ana claudia

Osame Kinouchi disse...

Ana e Heloisa,
O primeiro autor é quem fez o gol, o ultimo é o técnico. Mas realmente é esquisito tentar dizer quem é o responsavel individual por um time ganhar.

Nao peguei a discussao, mas grupos que criaram a cultura de incluir muita gente no paper serão penalizados caso o indice h_I for adotado pelo CNPq (ele já é usado como criterio de desempate no comite assessor de microbiologia).
Lembrando, h_I = h/N_a, onde h é o indice de Hirsh do autor e N_a é o numero medio de co-autores em seus h papers.